O absurdo do absurdo
Mais do que um ataque às mulheres, desqualificar o voto feminino representa um ataque ao próprio conceito de cidadania democrática

Entre as muitas contradições que marcam o debate político nos dias de hoje, poucas são tão eloquentes quanto ver mulheres que construíram influência, projeção pública e capital político graças à participação democrática defenderem, ainda que de forma indireta ou relativizada, a ideia de que mulheres não sabem votar.
A polêmica envolvendo declarações do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que afirmou que "mulher vota muito mal" e associou a participação feminina a supostos problemas políticos da direita, expõe algo mais grave do que uma provocação de redes sociais: revela o quanto discursos antidemocráticos podem encontrar eco justamente entre aqueles que são beneficiários diretos das conquistas democráticas.
Um exemplo dessa desconexão é a influenciadora Pietra Bertolazzi, com 1,3 milhão de seguidores em seu perfil no Instagram, onde se propõe a falar de “comportamento, ordem e espiritualidade”, que decidiu sair em defesa da tese apresentada por Figueiredo. O paradoxo é evidente. A pessoa exerce ativismo político, disputa narrativas, influencia eleições e mobiliza eleitores diariamente, mas endossa a ideia de que as mulheres, como grupo social, seriam incapazes de exercer adequadamente o direito ao voto.
Vale lembrar um detalhe histórico fundamental: o direito ao voto feminino não caiu do céu nem foi uma concessão espontânea do poder. Foi resultado de décadas de mobilização, enfrentamento político e luta por reconhecimento. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito de votar em 1932, após uma longa campanha liderada por pioneiras que enfrentaram preconceitos hoje considerados inaceitáveis, mas que, à época, eram defendidos com a mesma convicção por setores que acreditavam que mulheres eram emocionalmente incapazes de participar da vida pública.
Quase um século depois, surpreende perceber que argumentos semelhantes reaparecem, agora reciclados pelas redes sociais e, pior, reproduzidos por mulheres que se beneficiam diretamente das transformações que suas antecessoras ajudaram a construir.
Se as mulheres realmente "votassem mal" por sua condição de gênero, como explicar a existência da própria influenciadora Pietra Bertolazzi e suas congêneres? Como explicar o fato de que elas tenham conquistado audiência, relevância política e poder de mobilização justamente em uma sociedade que reconhece às mulheres o direito de participar plenamente da esfera pública?
Mais do que um ataque às mulheres, restringir ou desqualificar o voto feminino representa um ataque ao próprio conceito de cidadania democrática. Não existe democracia pela metade. Não existe liberdade política reservada a alguns grupos enquanto outros são considerados incapazes de decidir seus próprios destinos. A história mostra que toda tentativa de limitar direitos políticos começa pela desqualificação moral ou intelectual daqueles que exercem esses direitos.
Há, ainda, uma ironia incontornável nessa discussão. É justamente a democracia que garante o direito de se expressar qualquer opinião, inclusive as absurdas. O que ela não exige é que tais opiniões deixem de ser reconhecidas pelo que são: um retrocesso incompatível com quase um século de avanços civilizatórios.