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EDITORIAL

Negócio da China

Há ainda muitas lacunas sobre toda a negociação envolvendo carretas que seriam contratadas para realizar um mutirão milionário em Rio Preto

por Da Redação
Publicado em 24/06/2026 às 00:01
Editorial (Divulgação)
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A decisão do juiz da 2ª Vara da Fazenda de Rio Preto, Cristiano Mikhail, de determinar o bloqueio de bens dos envolvidos no infausto convênio assinado entre a Secretaria de Saúde e a Santa Casa de Casa Branca é apenas a ponta do iceberg de uma história que continua envolta em sombras.

O despacho da Justiça atende a pedido de liminar solicitado pela Procuradoria-Geral do Município, que pediu a medida para garantir a restituição de R$ 3,8 milhões que foram repassados antecipadamente ao hospital e não retornaram aos cofres públicos. Entre os alvos do bloqueio estão o ex-secretário de Saúde Rubem Bottas e o provedor da Santa Casa de Casa Branca, William Vieira Lemes.

Entre tantos pontos nebulosos que precisam ser esclarecidos sobre esse convênio, salta aos olhos a discrepância entre o plano de trabalho inicial apresentado pelo hospital e o efetivamente contratado pela Saúde, conforme reportagem exclusiva do Diário, publicada no último domingo, 21, que trouxe detalhes inéditos da sindicância interna realizada pela Prefeitura.

Como já foi ressaltado em outras reportagens, a primeira versão do plano de trabalho previa um valor de aproximadamente R$ 7,9 milhões para a realização de 81 mil procedimentos dentro do mutirão pretendido pela Saúde. Ocorre que os valores acertados entre a pasta e o hospital são soberbamente distintos: R$ 11,9 milhões para 63 mil atendimentos. Ou seja, um valor 50% maior para quase 20 mil procedimentos a menos.

O que, por si só, já seria suspeito, ganhou maior peso após o depoimento de Bottas à sindicância. Perguntado sobre essa desigualdade gritante entre o plano inicial e o final, o ex-secretário de Saúde afirmou que "somente tomou conhecimento dessa diferença por meio dos depoimentos colhidos na sindicância".

Ocorre que tudo isso já havia sido destacado no primeiro parecer elaborado por um procurador da PGM em abril, antes mesmo da assinatura do contrato. Das duas, uma: ou Bottas faltou com a verdade em seu depoimento na sindicância, ou sequer leu o parecer da Procuradoria e realmente não tinha a mínima ideia do que se passava em sua pasta. Ambas as alternativas são graves.

Ao fim e ao cabo, resta evidente que a demissão de Bottas, o bloqueio de bens e a aguardada restituição dos R$ 3,8 milhões não darão esse caso por encerrado. Há ainda muitas lacunas sobre toda a negociação envolvendo carretas fantasmas - ninguém sabe, ninguém viu - que seriam contratadas, por meio da modestíssima Santa Casa de Casa Branca, para realizar um mutirão milionário em Rio Preto.

Ainda não foi possível apontar o principal responsável por esse verdadeiro "negócio da China", que transformou um plano inicial de R$ 7,9 milhões em outro de R$ 11,9 milhões, com menos atendimentos. A única certeza é que, a cada nova revelação, o episódio Casa Branca se mostra menos um erro administrativo e mais um monumento à irresponsabilidade - ou coisa pior - na gestão do dinheiro público.