Diário da Região
EDITORIAL

Não matem o chafariz

A cidade não pode naturalizar o ciclo de remendar e, em seguida, propor a eliminação. É assim que cada geração assiste à perda gradual de suas referências

por Da Redação
Publicado há 1 hora
Editorial (Divulgação)
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Inativo desde outubro de 2025, o chafariz da Praça Rui Barbosa permanece seco no coração de Rio Preto e, com ele, parece esvaziar-se também um pouco da identidade do centro. Um dos locais mais marcantes da cidade caminha entre o abandono e a incerteza. Justificativas mencionam infiltrações e problemas na tubulação, mas o debate que se impõe, especialmente neste mês de aniversário da cidade, vai além de questões técnicas: trata-se de saber se Rio Preto pretende preservar sua memória ou descaracterizá-la com soluções bizarras.

A ideia de demolição para construção de um parque infantil, cogitada por segmentos que exercem liderança no comércio central, acende um alerta legítimo. Espaços de lazer para crianças são necessários e bem-vindos, mas não à custa da descaracterização de um elemento que já integra a paisagem afetiva e histórica do Calçadão.

O chafariz compõe a narrativa simbólica da praça, dialoga com o comércio do entorno e faz parte da experiência coletiva de quem vive e trabalha na região. Descartá-lo sob o argumento de que “há algo diferente em estudo” é reduzir patrimônio a obstáculo.

Os problemas estruturais apontados não podem servir de pretexto para a eliminação da fonte. Ao contrário: é preciso recuperar e preservar. É exatamente para isso que existem gestão pública e orçamento.

A cidade não pode naturalizar o ciclo de reformar, remendar e, diante de novas falhas, propor a retirada definitiva. Patrimônio urbano exige cuidado contínuo e visão de longo prazo. Caso contrário, cada geração assistirá à perda gradual de seus marcos de referência.

Basta recordar o que ocorreu com a antiga fonte luminosa da Represa Municipal: anos de descaso e ausência de manutenção a deixaram sucateada até que, por fim, foi eliminada. Repetir esse roteiro no centro é ceder à mesma lógica de abandono que antecede a demolição. O mesmo impulso destrutivo marcou, nos anos 1970, a demolição da antiga Catedral, contra a vontade popular, para dar lugar a uma construção dita modernosa, apagando um símbolo arquitetônico que jamais pôde ser recuperado.

Preservar e recuperar o que já é símbolo coletivo é sinal de maturidade administrativa e respeito à própria trajetória. “A praça é do povo como o céu é do condor”, escreveu Castro Alves, ao consagrar a ideia de pertencimento coletivo.