Milhões para nada
Cada estudo contratado gera expectativa na população e compromete recursos que poderiam estar atendendo demandas urgentes

Reportagem do Diário do último domingo, 1º, apontou que, nos últimos dez anos, aproximadamente R$ 20 milhões em dinheiro público foram consumidos por estudos técnicos e projetos básicos de viabilidade que acabaram descartados ou abandonados. Recursos que, em boa parte, escorreram pelo ralo.
É preciso separar o joio do trigo. Um estudo de viabilidade, por definição, antecede decisões e serve justamente para indicar se um projeto deve ou não ser adotado, sempre à luz do interesse público. Não há nada de anormal nesse procedimento.
O que ocorreu ao longo dos anos em Rio Preto, porém, vai além disso: são projetos que custaram muito dinheiro e tempo para, anos depois, simplesmente não resultarem em nada. A captação de água no rio Grande e o Trem Caipira são exemplos eloquentes.
O primeiro, por exemplo, consumiu, desde 2016, R$ 12 milhões dos cofres do município. Foram quase dez anos de debates, aprovação na Câmara e até a obtenção de um financiamento superior a R$ 600 milhões junto à Caixa Econômica Federal, para, depois, o projeto ser abandonado - independentemente do mérito da decisão do prefeito Coronel Fábio Candido (PL), que optou por desistir da captação no rio Grande.
Já o Trem Caipira é ainda mais simbólico, embora envolva menos recursos. Desde sua estreia nos trilhos, em dezembro de 2008, estava claro que o projeto precisaria de uma reestruturação profunda para se sustentar. Foram anos de interrupções, manutenção irregular e indefinições que soterraram uma iniciativa com forte apelo turístico, econômico e cultural, mas que acabou morrendo de inanição - levando consigo milhões do contribuinte.
A reportagem mostra que os exemplos não são pontuais. Inclui-se no rol de iniciativas abandonadas o contorno ferroviário, reformas em imóveis desativados e o restaurante popular, entre outros.
Falta um projeto estratégico consistente que dê sentido, sequência e prioridade às decisões. Cada estudo contratado gera expectativa na população e compromete recursos que poderiam estar atendendo demandas urgentes em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Quando um projeto é interrompido sem que haja aproveitamento concreto do que foi produzido, o prejuízo não é apenas contábil - é também institucional.
Rio Preto precisa transformar planejamento em política de Estado, e não de governo. Metas claras, cronogramas realistas, avaliação técnica permanente e transparência absoluta na aplicação dos recursos são medidas indispensáveis. O dinheiro público não pertence a gestões de ocasião; pertence ao cidadão. Evitar que milhões continuem sendo consumidos por iniciativas que não saem do papel é mais do que uma questão de eficiência administrativa - é um dever moral com quem paga a conta.