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EDITORIAL

Futebol e violência

A sociedade ainda convive com relações marcadas pela incapacidade de muitos homens de lidar com frustrações sem transformar mulheres em alvo

por Da Redação
Publicado em 12/08/2026 às 00:01
Editorial (Divulgação)
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O futebol não é o culpado pela violência contra a mulher. Mas também não pode servir de álibi para ela. É essa distinção que precisa ser feita diante dos números revelados pela segunda edição do estudo Futebol e Violência contra a Mulher, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento mostra que os registros de ameaça contra mulheres aumentam 27,4% nos dias de jogos e que as ocorrências de lesão corporal por violência doméstica crescem 28,8% nessas mesmas datas.

A pesquisa analisou o período de 2023 a 2025, cruzando registros policiais com as tabelas de partidas de clubes de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. É preciso ter responsabilidade ao analisar os dados: o estudo identifica uma associação entre dias de partidas e aumento dos registros, mas não afirma que o futebol seja a causa da violência.

“O futebol não gera violência doméstica. Mas catalisa para quem já vive em situação de grande vulnerabilidade”, destaca a coordenadora de gênero e raça do FBSP, Juliana Brandão.

O jogo não cria o agressor, é óbvio, assim como a paixão pelo clube não explica a agressão. O que existe é uma sociedade que ainda convive com relações marcadas pela incapacidade de muitos homens de lidar com frustrações sem transformar mulheres em alvo. E o problema se torna ainda mais grave quando se observa que parte significativa dessas agressões ocorre dentro de casa.

O estudo apresenta dez recomendações que deveriam integrar políticas permanentes de clubes, federações, poder público e torcidas. Entre elas estão postos de acolhimento e registro de denúncias dentro dos estádios; articulação permanente entre autoridades, clubes e torcedores; fiscalização do cumprimento das medidas protetivas; prevenção do consumo abusivo de álcool e dos efeitos das apostas; e programas de desenvolvimento socioemocional para jovens.

Não é aceitável que instituições que mobilizam milhões de pessoas permaneçam indiferentes diante de um problema que também atravessa o universo do futebol. Clubes e federações têm uma responsabilidade que vai muito além do resultado no campo. Atletas são referências para crianças e jovens. Torcidas têm capacidade de mobilização. E governos dispõem de instrumentos para prevenção, proteção e responsabilização. Todos podem e devem fazer mais.

Também não se pode cair na armadilha de tratar o problema como consequência inevitável dos jogos. A violência é uma escolha do agressor. O que o estudo demonstra é que determinados contextos podem funcionar como catalisadores de uma violência que já encontra terreno fértil em relações de vulnerabilidade.

O alerta, portanto, não é contra o futebol. É contra a naturalização da violência. O Brasil não pode aceitar que a mulher precise temer o próprio companheiro porque haverá jogo naquela noite e não pode tolerar que a casa, lugar que deveria representar proteção, se transforme em cenário de medo. A paixão pelo futebol é legítima. A violência, jamais.