EDITORIAL

Fogo não é acidente

O fogo que consumiu 14 hectares é um retrato de como uma sucessão de pequenas negligências pode produzir um dano de grandes proporções

por Da Redação
Publicado em 25/08/2026 às 21:12Atualizado em 25/08/2026 às 21:13
Editorial (Divulgação)
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É difícil chamar de acidente aquilo que começa com alguém colocando fogo em uma pilha de galhos em plena estiagem. O caso ocorrido no último sábado, 22, em uma área pública próxima à Floresta Estadual do Noroeste Paulista, em Rio Preto, expõe uma combinação perigosa de irresponsabilidade individual e falhas de prevenção do poder público. O jardineiro, segundo a investigação, entrou em uma área onde o descarte de resíduos era proibido, ateou fogo aos restos de poda e foi embora. A cerca estava rompida e permitiu a entrada.

A Prefeitura anuncia agora que vai reforçar as rondas na região durante a estiagem. A medida é necessária, mas também revela uma pergunta incômoda: por que a fiscalização precisa ser reforçada depois do incêndio? A chegada do período seco não é surpresa para ninguém. Prevenção não pode significar chegar depois do problema, mas identificar os riscos antes que eles produzam vítimas, destruição ambiental ou prejuízos.

Há, porém, uma responsabilidade que não pode ser transferida para o Estado ou para a Prefeitura: a da população. A cultura de queimar folhas, galhos e restos de poda para “resolver” rapidamente um problema precisa ser combatida com informação, fiscalização e punição. Fogo não é método de limpeza. Em período de seca, é um risco deliberadamente criado.

As consequências vão muito além da área queimada. O fogo destrói vegetação, elimina abrigo e alimento para animais e pode provocar a morte de espécies silvestres. A fumaça degrada a qualidade do ar e agrava problemas respiratórios. No caso de Rio Preto, chegou à Washington Luís e reduziu a visibilidade dos motoristas. Bastaria uma combinação desfavorável de velocidade, fumaça e desatenção para que um incêndio ambiental se transformasse também em uma tragédia no trânsito.

É justamente essa cadeia de consequências que deveria orientar a política pública de combate às queimadas. Não se trata apenas de apagar incêndios. Trata-se de impedir que eles comecem.

O município precisa mapear áreas de risco, manter cercas e acessos em condições adequadas, intensificar rondas nos períodos críticos e agir contra o descarte clandestino de resíduos. Da mesma forma, quem ateia fogo precisa entender que a alegação de que “não imaginava” que as chamas se espalhariam não elimina a responsabilidade pelo risco criado. Não é razoável exigir que a natureza obedeça à intenção de quem acende o fogo.

O fogo que consumiu 14 hectares não deveria ser tratado apenas como um caso policial ou ambiental isolado. Ele é um retrato de como uma sucessão de pequenas negligências - o descarte irregular, a cerca rompida, a queima de resíduos e a fiscalização insuficiente - pode produzir um dano de grandes proporções.

E, diante disso, não basta apagar as chamas, calcular os hectares destruídos e anunciar novas rondas. É preciso descobrir onde a prevenção falhou e corrigir essas falhas antes que o próximo jardineiro, proprietário de terreno ou cidadão irresponsável transforme outra fagulha em incêndio.