Faltou legitimidade
Em pleno 2026, a ausência de uma voz feminina em um debate voltado às mulheres não é um detalhe; é um ruído ensurdecedor

O Legislativo, principalmente o municipal, deveria, em sua essência mais nobre, ser o espelho da sociedade que pretende representar. No entanto, uma audiência pública realizada na Câmara de Rio Preto no dia 21 deste mês, com o tema “A defesa da vida e a saúde física e mental da mulher”, é um dos muitos e contundentes exemplos do quanto os representantes do povo rio-pretense estão longe desse ideal.
Ao escalar um painel composto por um médico e dois filósofos (todos homens) para tutorar a subjetividade feminina, a Comissão Permanente de Defesa da Família e da Vida, presidida pelo jovem vereador Felipe Alcalá (PL), não comete apenas um deslize de etiqueta com mais da metade da população de Rio Preto. Ela tropeça em uma profunda crise de legitimidade.
Isso porque a organização do evento desenhou um cenário onde o objeto de estudo é a mulher, mas o sujeito do discurso é, exclusivamente, o homem.
Fundamental ressaltar que o problema não está na competência técnica dos palestrantes, cujos currículos são academicamente muito respeitáveis. A falha revela que o buraco é bem mais embaixo. Como é possível debater e validar situações que passam por especificidades biológicas, pressões sociais e a constante vigilância sobre o corpo feminino sem que uma única mulher tenha lugar à mesa?
O erro grotesco na organização do evento não passou despercebido na própria Câmara, na sessão do dia 24, com críticas diretas da Tribuna feitas pela presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Patrícia Lopes de Souza, e pela única vereadora de Rio Preto, Márcia Caldas, que é correligionária de Alcalá.
A vivência não é um dado estatístico que pode ser lido por terceiros; é um pré-requisito para a compreensão da dor que dói em cada um.
Ao optar por essa formação, a Câmara transfigura o diálogo social em um exercício de "voz por procuração".
Em pleno 2026, a ausência de uma voz feminina neste debate não é um detalhe. É um ruído ensurdecedor. Não se trata de militância, mas de eficácia técnica. Uma política pública construída apenas por olhares externos corre o risco de ser, no limite, inócua.
Rio Preto é uma cidade com protagonismo feminino suficiente a ponto de exigir debates à altura de sua complexidade. E uma audiência sobre mulheres só é legítima se for, obrigatoriamente, construída com elas.