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EDITORIAL

Dois lados da moeda

O Estado precisa deixar de atuar apenas sobre as consequências e concentrar esforços nas estruturas financeiras e logísticas que sustentam as quadrilhas

por Da Redação
Publicado em 07/08/2026 às 21:00
Editorial (Divulgação)
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Os indicadores de criminalidade divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo trazem uma notícia animadora e outra que preocupa. A boa notícia é que Rio Preto e região conseguiram reduzir diversos crimes patrimoniais. Roubos e furtos em geral recuaram de forma consistente, um avanço que merece reconhecimento.

Mas justamente quando os índices gerais apontam para uma direção positiva, os furtos e roubos de veículos cresceram de forma expressiva em Rio Preto. Não se trata de uma oscilação estatística. Um aumento de 20,5% nos furtos e de 26% nos roubos na cidade revela uma tendência que exige reação imediata.

As próprias autoridades policiais explicam o fenômeno. Quadrilhas especializadas passaram a atuar em Rio Preto, vindas de outras regiões, atraídas por um mercado clandestino altamente lucrativo de veículos, peças e desmanches ilegais. Não se está diante da criminalidade ocasional, mas de organizações estruturadas, capazes de escolher alvos, mapear áreas vulneráveis e abastecer uma cadeia de receptação que continua funcionando.

Esse diagnóstico leva a uma conclusão inevitável: prender autores de furtos é importante, mas não basta. Enquanto permanecer intacta a engrenagem que compra, desmonta, distribui e comercializa veículos e peças roubadas, novos criminosos ocuparão rapidamente o lugar daqueles que forem presos. Combater apenas a ponta da cadeia significa aceitar um esforço permanente para enxugar gelo.

É nesse ponto que entra a responsabilidade do Estado. O combate ao crime organizado não pode depender apenas da eficiência e do empenho das delegacias locais. É indispensável ampliar as ações de inteligência, fortalecer as delegacias especializadas, integrar bancos de dados, utilizar de forma intensiva tecnologias como leitores automáticos de placas e ampliar a fiscalização sobre ferros-velhos, desmanches e estabelecimentos que comercializam peças usadas. A receptação continua sendo um dos grandes combustíveis dessa modalidade criminosa. Sem compradores, o furto deixa de ser um bom negócio.

Também é hora de ampliar os investimentos em monitoramento urbano. Cidades que conseguiram reduzir significativamente esse tipo de delito apostaram em sistemas inteligentes de videomonitoramento, capazes de identificar veículos suspeitos em tempo real e compartilhar informações entre municípios. Aqui, espera-se que a situação melhore com a adoção do projeto bilionário do Smart Rio Preto, que prevê o videomonitoramento e uma melhora substancial na iluminação pública, mas é necessária a implantação do programa para verificar sua efetividade.

Segurança pública exige capacidade de antecipação. O Estado precisa deixar de atuar apenas sobre as consequências e concentrar esforços nas estruturas financeiras e logísticas que sustentam essas quadrilhas. Caso contrário, continuará comemorando a queda de alguns índices enquanto outros crescem silenciosamente. E, para quem perde seu veículo para o crime, estatísticas positivas de nada valem.