Dignidade violada
Constrangimento imposto a um idoso em situação de rua ultrapassa a polêmica e transforma vulnerabilidade em instrumento de humilhação

As imagens de um privilegiado cidadão rio-pretense constrangendo um idoso de 83 anos a pintar os cabelos e a barba revelam algo maior do que um episódio isolado. O fato que veio à tona nesta semana em Rio Preto, em vídeo na internet, escancara uma prática presente em uma sociedade que perdeu a capacidade de enxergar a dignidade humana como valor inegociável.
Além da tintura vermelha e do cenário de uma garagem com uma frase na parede onde se lê "Tudo que desejares a mim, que Deus lhe dê em dobro", chama atenção no vídeo a negativa do idoso. Ele diz que não quer. Diz mais de uma vez. Demonstra desconforto. A violação da dignidade humana avança com a oferta de cinquenta reais em troca da suprema humilhação. A resistência cede diante da vulnerabilidade.
Não se trata de estética, de vaidade ou de uma suposta tentativa de “deixá-lo mais bonito”, como alegou o empresário. Tampouco importa se o fato ocorreu ontem ou no mês passado, e se tornou público com a esculhambação nas redes sociais. O centro da questão é o constrangimento. É a utilização da fragilidade de uma pessoa idosa, em situação de rua, para impor uma situação que ela claramente rejeitava.
A justificativa de que havia amizade entre os dois não altera a essência dos fatos. Relações de amizade deveriam pressupor respeito, especialmente quando existe uma enorme diferença de condições entre as pessoas envolvidas.
Também é insuficiente atribuir a repercussão negativa à interpretação do público ou à edição de um vídeo. O que causou indignação nacional não foi uma narrativa construída depois dos acontecimentos. Foram as próprias cenas. Foram as palavras ditas. Foram os gestos registrados sem qualquer necessidade de explicação adicional.
Quando alguém depende da boa vontade de terceiros para conseguir roupas, alimentação ou proteção, sua capacidade de recusar propostas constrangedoras fica reduzida. Há uma relação desigual que deveria impor limites éticos evidentes a qualquer interação.
A abertura de investigações pela Polícia Civil e pelo Ministério Público e a mobilização dos órgãos de proteção social devem avançar de forma a eliminar qualquer chance de impunidade. A sociedade possui mecanismos legais para proteger aqueles que se encontram em posição mais frágil diante de abusos, exposições e humilhações. Definitivamente, a vulnerabilidade de uma pessoa não pode ser transformada em instrumento de diversão, pressão ou demonstração de poder.