Descaso com a memória
Rio Preto não pode aceitar que sua história seja lentamente apagada pelo descaso. Monumentos não são apenas pedra e bronze; são marcos de uma trajetória comum

Reportagem publicada pelo Diário no último domingo, 3, traz um cenário de abandono da história de Rio Preto. Estátuas e bustos que guardam fragmentos da memória local exibem marcas de completo descaso. Danos visíveis, peças furtadas e falta de manutenção expõem o descuido com o patrimônio público nas ruas de Rio Preto.
Uma cidade que se orgulha de sua trajetória não pode permitir que símbolos dessa mesma história se deteriorem diante dos olhos de todos. O dedo quebrado de Alberto Andaló, as “lágrimas” no busto de Bady Bassitt, os óculos incompletos de Rui Barbosa, o Cristo do Maceno tomado pelo tempo e o Monumento ao Soldado Constitucionalista mutilado não são apenas problemas estéticos, mas sinais de uma ruptura com a própria identidade coletiva.
A responsabilidade, claro, não recai exclusivamente sobre a atual administração. O abandono dos monumentos, como bem apontado pelo historiador Lelé Arantes na reportagem, é antigo, estrutural, atravessa gestões e revela uma falha contínua do poder público em compreender o valor simbólico desses marcos. As décadas de omissão transformaram a negligência em rotina.
Mas reconhecer a dimensão histórica do problema não exime o presente de agir. Mais do que restaurar peças danificadas, é necessário instituir uma política permanente de preservação, com o mapeamento de todos os monumentos e ações de proteção contra vandalismo e furtos.
Não seria demais pedir para que essas peças, que são retratos vivos da história rio-pretense, tenham a mesma atenção dispensada à “Dona Capi”, recém-inaugurada na Represa Municipal, que já recebeu intervenções e investimentos significativos em curto espaço de tempo. Não se discute aqui o valor simbólico ou turístico da obra, mas a disparidade de tratamento. Será que a memória consolidada da cidade não merece o mesmo zelo?
Preservar o passado não é um luxo, mas uma necessidade cívica. Como escreveu o historiador francês Jacques Le Goff (1924–2014), “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva”. Sem ela, a cidade perde referências, dissolve narrativas e enfraquece seu vínculo com as gerações futuras.
Rio Preto não pode aceitar que sua história seja lentamente apagada pelo descaso. Monumentos não são apenas pedra e bronze; são marcos de uma trajetória comum. Deixá-los desaparecer é consentir com o esquecimento. Mais do que restaurar estátuas, é preciso restaurar a consciência de que uma cidade sem memória é uma cidade abandonada.