EDITORIAL

Cultura distante

A região de Rio Preto não só regrediu, como está abaixo da média estadual em vários indicadores relativos ao consumo de cultura

por Da Redação
Publicado há 3 horas
Editorial (Divulgação)
Galeria
Editorial (Divulgação)
Ouvir matéria

Reportagem publicada neste domingo, 12, pelo Diário, traz uma informação preocupante: o crescente desinteresse da população da região de Rio Preto pelo consumo de cultura. Dados da Fundação Seade escancaram esse problema: menos gente indo ao cinema, menos presença em espetáculos, museus esvaziados e um salto expressivo no número de pessoas que não leram nenhum livro em um ano. Trata-se de um empobrecimento silencioso da vida social.

Entre 2024 e 2025, a proporção de moradores que foram ao cinema despencou de 35% para 25%. Em espetáculos como teatro, dança e shows, a queda foi de 55% para 45%. E a leitura sofreu um golpe ainda mais simbólico: o número de pessoas que não leram nenhum livro saltou de 28% para 38%.

A região Noroeste não só regrediu, como está abaixo da média estadual em vários indicadores. Enquanto o Estado registra 35% de frequência ao cinema, a região fica nos 25%. Nos museus, a diferença é ainda mais gritante: 32% no Estado contra apenas 17% localmente.

Há uma falha evidente do poder público que colabora para essa realidade. Equipamentos que não funcionam aos fins de semana, ausência de programação consistente, falta de planejamento e, em muitos casos, gestão pouco qualificada ajudam a afastar o público. Mas reduzir o problema à esfera administrativa seria simplificar demais.

O acesso à cultura também esbarra diretamente em aspectos sociais. Ir ao cinema, que já foi uma das formas mais populares de lazer, tornou-se caro para grande parte da população. Não é apenas o ingresso: somam-se transporte, alimentação e a própria logística de deslocamento em uma cidade espalhada. Para quem vive longe dos shoppings ou em cidades da região que sequer possuem salas de cinema, o custo financeiro e o tempo necessário transformam o que deveria ser rotina em exceção.

A mesma lógica se aplica a museus, teatros e bibliotecas, mesmo sendo gratuitos. Falta transporte adequado, falta informação, falta, sobretudo, o sentimento de pertencimento. Sem isso, a cultura deixa de ser um direito e passa a ser percebida como algo externo, elitista e praticamente inacessível.

Os dados mostram que é possível mudar esse quadro, desde que haja vontade do poder público. Quando há mediação, como em projetos escolares e iniciativas organizadas, o público aparece. Isso indica que o problema não está na demanda, mas nas condições de acesso. Se houver disposição real de enfrentar esse quadro, o caminho passa por reconhecer a cultura como parte da vida cotidiana, e não como luxo eventual.

Uma região que se afasta da cultura não perde apenas público em salas de cinema ou museus, mas perde repertório e identidade. A queda no consumo cultural não é apenas uma questão de lazer, mas afeta a formação crítica, a saúde mental e a capacidade de uma sociedade interpretar a si mesma.

Como aponta o próprio levantamento, a cultura ajuda a dar sentido à experiência humana. Sem ela, a vida, no geral, se empobrece e definha gradativamente.