Corruptos de estimação
Quando a política é tratada como torcida, denúncias deixam de ser avaliadas pelos fatos e passam a ser julgadas conforme a camisa de quem as veste

Ao comentar na edição de ontem do Diário a reportagem "Gaeco aponta ‘escala de produção’ em suposto esquema de desvios em Catanduva", envolvendo a Câmara Municipal, um leitor resumiu com propriedade: “É a prova de que político corrupto não é exclusividade apenas de um lado”. Ele lembra que “o eleitor neste país virou tudo militante, políticos fazem o que querem e ainda são reeleitos por conta de ideologia e alienação da população.”
De fato, a sucessão de investigações de corrupção envolvendo agentes públicos em diferentes cidades, Estados e esferas de poder reforça uma constatação que deveria ser elementar: corrupção não tem ideologia, partido ou lado político. Ela prospera sempre que faltam fiscalização, transparência e compromisso com o interesse público.
Independentemente de quem esteja no poder, desvios de recursos públicos representam um ataque ao contribuinte e à própria confiança nas instituições. O prejuízo não se limita aos cofres públicos. Ele alcança serviços essenciais, compromete políticas públicas e enfraquece a democracia.
O problema é que, no Brasil, denúncias frequentemente deixam de ser analisadas pelos fatos e passam a ser filtradas pela conveniência política. Se o investigado pertence ao grupo adversário, a indignação costuma ser imediata. Se faz parte do campo ideológico preferido, surgem justificativas, relativizações e tentativas de desqualificar órgãos de investigação ou decisões judiciais.
Essa lógica produz um perigoso efeito: cria os "corruptos de estimação". Não importa a gravidade das acusações, mas quem é o acusado. O combate à corrupção deixa de ser um valor permanente para se tornar apenas mais uma arma na disputa política.
É evidente que toda investigação deve respeitar o devido processo legal, a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa. Denúncias não equivalem a condenações. Mas também não podem ser descartadas ou minimizadas apenas porque atingem figuras consideradas aliadas.
Esse desafio torna-se ainda mais relevante em um ano de eleições. O debate público tende a se radicalizar, e cresce a tentação de transformar denúncias em instrumentos de campanha ou, na direção oposta, de blindar candidatos e lideranças por mera afinidade política. Nenhuma dessas posturas fortalece a democracia.
O eleitor exerce sua cidadania não apenas ao votar, mas também ao cobrar coerência. A ética pública não pode depender da cor da bandeira nem da preferência partidária.
A corrupção continuará encontrando espaço enquanto houver cidadãos dispostos a condená-la apenas quando ela estiver do outro lado. O combate aos desvios precisa ser um compromisso de todos, contra qualquer governo, qualquer partido e qualquer agente público.