Diário da Região
EDITORIAL

Corrupção endêmica

Entre os aspectos negativos apontados no IPC 2025, salta aos olhos a constatação inequívoca do aliciamento do Estado brasileiro pelo crime organizado

por Da Redação
Publicado em 11/02/2026 às 03:13Atualizado há 2 horas
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O que Cabo Verde, Letônia, Ruanda, Cuba, Timor-Leste e Tanzânia têm em comum? São todos países com colocação melhor que a do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), levantamento anual da Transparência Internacional que mede o nível de corrupção no setor público.

Em uma escala de 0 a 100, o Brasil obteve, no ano passado, 35 pontos, ocupando a 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados. Essa é a segunda pior nota da série histórica no IPC, que é considerado o principal indicador mundial sobre corrupção e elaborado a partir da análise de 13 fontes independentes que reúnem a percepção de especialistas, pesquisadores e executivos sobre práticas corruptas no setor público e mecanismos de prevenção.

Além do índice, a Transparência Internacional - Brasil divulgou na terça-feira, 10, um relatório chamado “Retrospectiva 2025”, que faz uma análise qualitativa sobre avanços e retrocessos do País no combate à corrupção no último ano. As 129 páginas deste estudo são reveladoras sobre a posição medíocre do Brasil no IPC.

Entre os aspectos negativos apontados no estudo, salta aos olhos a constatação inequívoca de que, em 2025, ficou escancarado o aliciamento do Estado brasileiro pelo crime organizado. "Nunca foi tão visível a extensão do poder das facções e sua penetração estatal, operada fundamentalmente pela corrupção de dois setores da economia formal: o sistema financeiro e a advocacia. O crime organizado ocupa territórios através das armas, mas ocupa instituições através do dinheiro", destaca o relatório.

O estudo indica falhas de controle, coordenação e resposta do governo federal frente ao caso INSS, maior esquema de corrupção previdenciária da história brasileira, além do "enfraquecimento e da captura política de agências regulatórias". Em relação ao Legislativo, há apontamentos sobre o sequestro crescente do orçamento, com destaque para as emendas alcançando valores recordes e "esforços persistentes para manter baixos níveis de transparência e rastreabilidade".

A cereja do bolo é o Judiciário, com o caso Master revelando "fortes indícios de cooptação de autoridades de cúpula do Poder Judiciário, com suspeitas agravadas pelo contrato inexplicado de R$ 129 milhões do banco com a esposa do ministro Alexandre de Moraes e pela condução heterodoxa e opaca pelo ministro Dias Toffoli das investigações".

Esse amálgama de constatações não é um mero número técnico sobre corrupção, mas o retrato de um país que falha em enfrentar de frente o que há de mais corrosivo para sua democracia, para a confiança nas instituições e para a vida cotidiana dos seus cidadãos.

A corrupção não é uma abstração acadêmica: ela drena recursos da saúde, da educação, da infraestrutura. Não se trata de melhorar a posição do Brasil em um ranking internacional. Aparecer entre os piores colocados em integridade pública indica, na prática, que o País tolera privilégios, acordos obscuros e a diluição constante da responsabilidade, além de permitir bovinamente a infiltração do crime organizado em todas as esferas. E isso não pode mais ser tolerado.