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EDITORIAL

Bets em campo

A publicidade não pode transformar um espetáculo esportivo como a Copa do Mundo em uma máquina de recrutar novos apostadores

por Da Redação
Publicado em 28/06/2026 às 00:02
Editorial (Divulgação)
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A Copa do Mundo é um espetáculo que mobiliza paixões, une famílias e transforma o futebol em uma rara experiência coletiva. Porém, nesta edição, tem entrado em campo de forma acintosa, em todas as partidas, um novo adversário: a publicidade agressiva das casas de apostas. Parte da cobertura esportiva passou a vender a aposta como extensão natural da experiência esportiva, dissolvendo a fronteira entre entretenimento e incentivo ao jogo.

Por isso, é mais do que acertada e necessária a decisão liminar do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que determinou a suspensão de propaganda abusiva de bets durante as transmissões da CazéTV, extrapolando os limites do aceitável.

O órgão identificou que narradores e comentaristas passaram a apresentar, em meio à transmissão, odds e oportunidades de apostas para lances iminentes das partidas, misturando análise esportiva com comunicação comercial. Segundo o conselheiro relator Luiz Celso de Piratininga Jr., essa combinação pode induzir o consumidor a uma compreensão equivocada sobre as reais probabilidades de ganho, além de dificultar a distinção entre conteúdo editorial e publicidade. A transmissão deixa de ser apenas futebol para se transformar em uma permanente convocação à jogatina.

É justamente essa mistura que torna a estratégia tão perigosa. A emoção de um ataque é imediatamente convertida em oportunidade de apostar. O torcedor já não é apenas espectador; passa a ser tratado como cliente em potencial, estimulado a transformar cada momento da partida em uma aposta instantânea.

O discurso das empresas tenta suavizar essa realidade com avisos protocolares, de eficácia quase nula. No fim das contas, o "jogue com responsabilidade" das bets é o novo "beba com moderação" das propagandas de cerveja: expressões que são convenientes para aliviar consciências e cumprir formalidades, mas incapazes de neutralizar o bombardeio de mensagens cuidadosamente construídas para incentivar exatamente o comportamento que fingem desencorajar.

O problema se agrava porque o público não é formado apenas por apostadores habituais. Milhões de jovens, adolescentes e pessoas vulneráveis acompanham os jogos. Para quem possui predisposição ao vício, ou sequer percebe que está desenvolvendo uma dependência, essa exposição contínua funciona como um poderoso gatilho. A lógica das apostas esportivas se alimenta justamente da ilusão de controle, da falsa impressão de que conhecimento sobre futebol aumenta significativamente as chances de lucro.

O futebol continuará sendo paixão nacional muito depois da Copa acabar. O endividamento familiar e a dependência provocados pelas apostas, porém, permanecem muito além dos 90 minutos de uma partida. A publicidade não pode transformar um espetáculo esportivo em uma máquina de recrutar novos apostadores. Quando a emoção do jogo passa a ser explorada como ferramenta para estimular o vício, já não se trata apenas de marketing agressivo, mas de manipulação. Manipulação essa que a sociedade tem o dever de não aceitar como parte normal do espetáculo.