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EDITORIAL

Amnésia eleitoral

Se o eleitor não recorda em quem votou, tampouco se lembrará de como aquele parlamentar atuou, quais projetos apresentou, como votou ou se fez bom uso do mandato

por Da Redação
Publicado em 01/07/2026 às 00:02
Editorial (Divulgação)
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Pesquisa Datafolha divulgada no último domingo, 28, pelo jornal Folha de S.Paulo, mostra o quão capenga é o sistema democrático brasileiro. Das 2.004 pessoas ouvidas em 139 cidades, entre os dias 17 e 18 de junho, 68% não conseguem citar o nome de um deputado federal sequer, 75% não lembram de nenhum senador e cerca de dois terços sequer recordam em quem votaram para esses cargos nas eleições de 2022. É um dado devastador.

É certo que, em um sistema proporcional complexo, com centenas de candidatos disputando vagas, a escolha para o Legislativo seja menos marcante do que a disputa presidencial. Mas isso não explica essa amnésia coletiva. Afinal, não se trata apenas de memória, mas de acompanhamento, fiscalização e responsabilidade política. Se o eleitor não sabe quem elegeu, dificilmente saberá cobrar promessas, fiscalizar mandatos ou premiar e punir parlamentares pelo desempenho nas urnas.

O esquecimento se torna ainda mais prejudicial em um país no qual o Congresso Nacional acumula um poder sem precedentes. Deputados e senadores deixaram de ser meros coadjuvantes do Executivo para se tornarem protagonistas da vida política nacional.

Os parlamentares definem a agenda econômica, impõem derrotas ou concedem vitórias ao governo, interferem diretamente na execução do Orçamento e controlam uma fatia bilionária dos recursos públicos. Para 2026, por exemplo, nada menos que R$ 61 bilhões estão destinados a emendas parlamentares, um valor recorde. Paradoxalmente, quanto mais poder o Congresso acumula, menos atenção parece receber da sociedade.

Há ainda um efeito perverso dessa amnésia eleitoral: ela beneficia justamente quem menos deveria ser beneficiado. Parlamentares já conhecidos, detentores de grandes estruturas partidárias, verbas públicas, exposição nas redes sociais e acesso a recursos de campanha largam sempre em vantagem.

Pior que isso, deputados e senadores de atuação medíocre, picaretas ou mesmo envolvidos em práticas nada republicanas acabam protegidos pelo esquecimento coletivo. Se o eleitor não recorda em quem votou, tampouco se lembrará de como aquele parlamentar atuou, quais projetos apresentou, como votou ou se fez bom uso do mandato. A falta de memória transforma a prestação de contas em mera formalidade e reduz o custo político da omissão, da incompetência e até de desvios éticos.

Uma democracia consistente exige cidadãos que saibam não apenas o nome do presidente, mas também de quem legisla em seu nome e controla bilhões de reais do Orçamento.

Enquanto a memória política do brasileiro continuar tão curta, os maus parlamentares terão um aliado silencioso: o esquecimento. E uma democracia em que os representantes contam com a amnésia coletiva para não prestar contas é uma democracia condenada.