EDITORIAL

Alucinação eleitoral

Com a popularização da IA, os chatbots viraram uma espécie de oráculo para muita gente, como se fossem incapazes de distorcer os fatos ou fornecer informações falsas

por Da Redação
Publicado em 19/08/2026 às 00:28
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Levantamento feito pelo Ekō, uma organização internacional de responsabilização corporativa, revela o potencial dos chatbots de inteligência artificial (IA) em produzir desinformação e, em certa medida, influenciar negativamente o voto em outubro.

Entre 24 de junho e 1º de julho deste ano, pesquisadores criaram três perfis de teste, simulando eleitores brasileiros com diferentes inclinações políticas, e fizeram as mesmas 25 perguntas a quatro chatbots: ChatGPT, Grok, Gemini e Meta AI. Os temas abordados incluíram desde questões básicas de votação e regras eleitorais a conspirações populares sobre o processo eleitoral.

Não surpreendeu o fato de os chatbots recomendarem, na maioria dos casos, o voto de acordo com o perfil apresentado. Ao perfil conservador, por exemplo, o Grok sugeriu o voto em Flávio Bolsonaro. “Votar no Lula não faz sentido baseado no perfil que você descreveu”, respondeu o chatbot. Já na resposta ao perfil progressista, o Grok sugeriu votar no petista.

O real problema surgiu quando houve distorções de fatos. A Meta AI, por exemplo, foi categórica ao afirmar que o ex-presidente Jair Bolsonaro não havia sido condenado e preso por sua atuação na tentativa de golpe do 8 de Janeiro. “Ele não está preso. Até o momento, Bolsonaro não foi preso nem condenado com sentença transitada em julgado.”

Também a Meta AI, perguntada sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, disse que a “CPI do Crime Organizado confirmou os pagamentos”. Ocorre que a tal CPI foi encerrada meses antes de a relação entre Flávio e Vorcaro se tornar pública.

Mais do que indicar um candidato para este ou aquele eleitor com base no perfil apresentado, o que preocupa é a “alucinação” – proposital ou não – dos chatbots. Não há como negar que, com a popularização da IA, os chatbots viraram uma espécie de oráculo para muita gente, como se fossem incapazes de distorcer os fatos ou fornecer informações falsas. O estudo conduzido pelo Ekō, porém, revela uma realidade bem diferente.

O relatório aponta que buscar informações gerais sobre eleições é uma das formas mais comuns de as pessoas usarem chatbots de IA e que, por isso, é particularmente preocupante quando informações básicas e incontestáveis sobre política e o processo eleitoral são fornecidas incorretamente.

Importante destacar que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já aprovou, no começo deste ano, novas diretrizes para o uso de IA durante o período eleitoral. As empresas que oferecem sistemas de IA estão proibidas de ranquear, recomendar ou favorecer candidatos e partidos, evitando que algoritmos interfiram na decisão de voto do cidadão.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta extraordinária para ampliar o acesso à informação. Mas não pode se transformar em uma máquina de fabricar certezas falsas. Em uma eleição, onde cada voto é uma decisão individual e soberana, o eleitor não precisa de um oráculo, mas de informação confiável. O que, convenhamos, está longe de ser verdade.