Alfabetização abaixo da meta
O indicador, que não deve ser usado como fim, mas como ponto de partida, cumpre um papel essencial ao evidenciar desigualdades e apontar desafios

Os dados mais recentes do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), do Ministério da Educação, divulgados na edição desta quarta-feira pelo Diário, acendem um sinal de alerta que não pode ser ignorado na região de Rio Preto. Ao revelar que 26 dos 96 municípios avaliados não atingiram suas metas individuais de alfabetização em 2025, o levantamento expõe fragilidades estruturais e educacionais que exigem resposta coordenada do poder público.
Em Rio Preto, o índice de crianças alfabetizadas no 2º ano do ensino fundamental ficou em 57%, abaixo da meta nacional de 64%. Ainda que o município tenha mantido estabilidade em relação ao ano anterior, a estagnação, por si só, já preocupa.
A situação se agrava quando observamos os casos mais críticos. Dolcinópolis apresentou o pior desempenho regional, com apenas 36% das crianças atingindo o nível esperado. Já em Zacarias, a queda brusca de 80% para 46% em apenas um ano chama atenção para possíveis inconsistências nos critérios de avaliação ou, mais grave, para uma deterioração rápida das condições de ensino.
Entre os 26 municípios que não atingiram suas metas, 16 ficaram também abaixo da média nacional. Salas de aula superlotadas, falta de infraestrutura adequada e até condições climáticas desfavoráveis nos ambientes escolares são parte das explicações, apontando obstáculos concretos que comprometem a aprendizagem.
Especialistas alertam que a alfabetização é um processo complexo, que vai muito além de métodos pedagógicos. Fatores como a formação continuada dos professores, a existência de uma cultura leitora, a estabilidade das políticas públicas e as condições socioemocionais dos alunos desempenham papel decisivo. Reduzir essa realidade a índices numéricos pode levar a diagnósticos incompletos e, pior, à responsabilização indevida dos docentes.
Isso não significa, contudo, desqualificar o ICA. Pelo contrário: o indicador cumpre papel essencial ao evidenciar desigualdades e apontar onde estão os maiores desafios. O problema está em utilizá-lo como fim, e não como ponto de partida para ações efetivas.
É preciso transformar diagnósticos em políticas consistentes, com continuidade e foco no longo prazo. Ignorar esse alerta agora é comprometer o futuro de uma geração inteira.