Aberração institucional
Não há qualquer racionalidade em manter gabinetes adicionais robustos para ex-membros da Mesa Diretora da Alesp. É indecência pura

Há algo de profundamente errado quando a máquina pública se organiza para priorizar e amparar carreiras políticas, em declínio ou não, em completa inversão de valores em relação aos interesses de toda a sociedade. O chamado “gabinete do ex”, mantido pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para ex-presidente da instituição e outros dois ex-integrantes da Mesa Diretora (1º e 2º secretários), é a materialização dessa distorção.
Enquanto prefeitos de cidades médias e pequenas peregrinam por secretarias estaduais e ministérios em busca de recursos para saúde, educação e infraestrutura, a Alesp sustenta uma estrutura paralela que consome cerca de R$ 830 mil por mês, com vencimentos generosos a uma penca de assessores. Caso, por exemplo, dos R$ 30 mil mensais pagos à esposa do prefeito de Olímpia, Geninho Zuliani, pelo gabinete suplementar ligado ao ex-presidente da Alesp, o votuporanguense Carlão Pignatari.
É dinheiro público torrado não para ampliar serviços, mas para garantir conforto, cargos e salários a ex-dirigentes que já dispõem de mandatos, gabinetes e verbas próprias, ou para tirá-los do ostracismo. A ideia de “continuidade institucional”, repetida como mantra oficial, não resiste a um exame minimamente honesto.
Não há qualquer racionalidade administrativa em manter gabinetes robustos para ex-membros da Mesa Diretora. O que existe é redundância cara, ineficiente e moralmente indefensável. Não sendo, de forma alguma, referência de boa governança, mas justamente o oposto, por que São Paulo insiste em preservar esse privilégio? Para proteger os seus, independentemente do custo social.
Casos individuais ajudam a ilustrar o problema, mas não devem desviar o foco do essencial. Não se trata de uma pessoa, de uma cidade ou de um episódio isolado. Trata-se de um sistema desenhado para acolher aliados políticos após derrotas eleitorais, funcionando como porto seguro para quem perdeu espaço no Executivo, mas não abre mão das benesses do poder.
A mensagem transmitida é perversa: o voto popular pouco importa quando há arranjos capazes de garantir privilégio financeiro e influência em bastidores. Manter a estrutura é um insulto. Cabe à Alesp eliminar essa aberração institucional e mostrar que na Casa ainda existe um mínimo de decência.