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EDITORIAL

A saga dos sem-uniforme

O retrato fiel de um problema crônico que atravessa gestões e escancara a incapacidade dos sucessivos prefeitos de fazer o básico em Rio Preto

por Da Redação
Publicado há 2 horas
Editorial (Divulgação)
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A persistência do atraso na entrega de uniformes escolares na rede municipal de Rio Preto já não pode mais ser tratada como um contratempo eventual ou um deslize administrativo, mesmo com a constatação de entregas parciais. Trinta das 140 escolas não receberam uniforme nenhum, enquanto outras receberam incompleto.

Trata-se de um retrato fiel de um problema crônico que atravessa gestões e escancara a incapacidade dos sucessivos prefeitos de fazer o básico. Já se passou um quarto do século 21, e o que se vê é a repetição de erros primários, como se o tempo não tivesse ensinado nada.

A cada troca de governo, renova-se o discurso, reformulam-se prioridades no papel e reforça-se a retórica de modernidade. No entanto, a realidade concreta desmonta a narrativa com facilidade constrangedora. Uma cidade que não consegue planejar, contratar, fiscalizar e entregar uniformes escolares dentro do prazo não pode se arrogar o título de eficiente ou de inteligente. Falta gestão. Falta método.

O argumento de que houve descumprimento contratual por parte da empresa fornecedora não exime o poder público de sua responsabilidade central. Cabe à Prefeitura prever riscos, estabelecer cláusulas eficazes, acompanhar cronogramas com rigor e agir preventivamente diante de sinais de atraso. Quando a falha se materializa dessa forma, atingindo dezenas de escolas e milhares de alunos, fica evidente que o problema não começa no fornecedor; começa na fragilidade da gestão.

Ainda mais grave é a tentativa de apresentar a entrega parcial como solução aceitável. Entrega parcial não é entrega. É remendo. É admissão de que o planejamento falhou e de que, diante disso, opta-se por reduzir o padrão em vez de corrigir a execução. Distribuir duas camisetas e uma bermuda quando o previsto eram cinco peças não resolve o problema; apenas o dilui, transferindo às famílias e às escolas a responsabilidade de lidar com a insuficiência.

Esse tipo de medida, travestida de pragmatismo, acaba por institucionalizar o improviso. E o improviso, quando se torna regra, deixa de ser exceção e passa a ser política pública. É assim que se constrói uma cultura administrativa marcada pela tolerância ao erro recorrente, pela baixa exigência de resultados e pela ausência de consequências efetivas para falhas previsíveis.