A fuga como estratégia
Lula, Flávio e Zema não foram ao debate Band/Estadão porque suas campanhas entenderam que o cálculo eleitoral era mais importante do que o interesse público

Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) prestaram um enorme desserviço ao processo democrático, fugindo do debate presidencial promovido pelo Grupo Bandeirantes em parceria com o Estadão, na noite de domingo, 23.
Não foram apenas três cadeiras vazias no estúdio: foram três candidatos que decidiram, por conveniência eleitoral, privar o eleitor de ouvir o que pretendem fazer caso cheguem ao Palácio do Planalto. E, pior, dois deles - Lula e Flávio - são justamente os nomes que lideram a corrida presidencial.
É evidente que a decisão não nasceu do acaso. Há marqueteiros, estrategistas, pesquisas qualitativas e planilhas capazes de calcular até o risco de uma sobrancelha levantada no momento errado. A conclusão foi a de que os candidatos tinham mais a perder do que a ganhar expondo-se ao confronto. A lógica pode parecer eficiente para uma campanha, mas é péssima para a democracia.
Debate não existe para oferecer uma sessão de fotos aos candidatos nem para servir de cenário para discursos ensaiados. Existe justamente para colocar projetos, ideias, contradições e biografias frente a frente. É no confronto que o eleitor consegue perceber não apenas o que um candidato promete, mas como reage quando é questionado, contrariado ou pressionado. Fugir dessa experiência é negar ao cidadão uma das ferramentas mais importantes para fazer uma escolha consciente.
Lula, Flávio e Zema podem apresentar as justificativas que quiserem. O fato essencial continuará intacto: eles não foram. E não foram porque suas campanhas entenderam que o cálculo eleitoral era mais importante do que o interesse público.
O candidato não deveria perguntar primeiro o que ganha com um debate, mas perguntar o que o eleitor ganha com sua presença. Essa, porém, parece ser uma pergunta excessivamente ingênua para a política profissional dos nossos tempos. Nela, o cidadão é reduzido a uma estatística de pesquisa, o voto vira um número e o debate passa a ser tratado como um risco de investimento.
Há uma ironia particularmente perversa nisso tudo: os candidatos faltosos provavelmente serão os primeiros a falar, durante a campanha, sobre a importância da democracia, da participação popular, do respeito às instituições e do direito de escolha. Falarão em nome do povo, defenderão o povo, pedirão o voto do povo. Mas, quando chega a hora de conversar com esse mesmo povo por meio de um debate público, inventam as piores desculpas esfarrapadas. Convenhamos: é uma democracia bastante conveniente, não?