EDITORIAL

A escalada da violência

O papel da sociedade é crucial, já que a violência sexual muitas vezes acontece dentro do próprio ambiente familiar ou em círculos próximos da vítima

por Da Redação
Publicado em 10/03/2026 às 03:00
Editorial (Divulgação)
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Os números divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo sobre os casos de estupro na região de Rio Preto são alarmantes, e exigem uma reação firme da sociedade. Em janeiro de 2026, o município registrou 28 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável, o dobro das 14 registradas no mesmo mês de 2025. Na região, o crescimento também foi expressivo: os casos saltaram de 51 para 85, um aumento de 66%.

Mais do que estatísticas, esses dados representam histórias de violência, traumas profundos e vidas marcadas por um crime que atinge não apenas as vítimas, mas toda a comunidade. E o quadro se torna ainda mais grave quando se observa quem são as principais vítimas: crianças e adolescentes.

Os registros mostram que a maior parte das ocorrências envolve menores de 14 anos, configurando estupro de vulnerável. No complexo hospitalar da Funfarme, entre 2018 e 2025, foram realizados 1.058 atendimentos a mulheres vítimas de violência sexual, sendo que 66% tinham menos de 18 anos. Trata-se de um retrato duro e inaceitável: os mais jovens, que deveriam ser protegidos, estão entre os mais expostos à violência.

É verdade que parte do aumento pode estar relacionada à maior conscientização e à ampliação das denúncias, resultado de campanhas e do trabalho das autoridades. Quanto mais vítimas se sentirem seguras para denunciar, melhor para a sociedade. O silêncio sempre foi um dos maiores aliados dos agressores. Mas essa constatação não diminui a gravidade do problema. Pelo contrário: revela uma realidade de violência sexual que, por muito tempo, permaneceu escondida.

Combater essa barbárie exige uma mobilização ampla. Primeiro, é fundamental fortalecer a rede de proteção às vítimas. Delegacias especializadas, equipes de saúde preparadas e serviços de acolhimento psicológico precisam ter estrutura adequada para atender quem denuncia. O apoio às vítimas é parte essencial da resposta do Estado.

Também é necessário investir de forma consistente em prevenção. Orientação nas escolas, campanhas permanentes de conscientização e programas de proteção à infância são ferramentas fundamentais para identificar abusos precocemente e impedir que continuem ocorrendo.

Outro ponto crucial é o papel da sociedade. A violência sexual muitas vezes acontece dentro do próprio ambiente familiar ou em círculos próximos da vítima. Por isso, vizinhos, parentes, professores e profissionais de saúde precisam estar atentos a sinais de abuso. Ignorar suspeitas ou tratar o assunto como tabu só contribui para perpetuar o ciclo de violência.

Por fim, é indispensável que a Justiça continue agindo com rigor. A punição efetiva dos agressores é uma mensagem clara de que esse tipo de crime não será tolerado.

Uma sociedade que não protege suas crianças e mulheres falha em um de seus princípios mais básicos. E enfrentar a violência sexual não é tarefa apenas da polícia ou da Justiça, mas é responsabilidade de todos nós.