EDITORIAL

É só o começo

A exoneração do secretário e o anúncio de um decreto para regulamentar o estacionamento em áreas públicas são decisões acertadas do governo. Porém, o assunto está longe de estar encerrado

por Da Redação
Publicado há 10 minutos
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A demissão do secretário de Esportes, Kleber Kizumba, após esse Diário divulgar a cessão da Cidade da Criança para a exploração de um estacionamento no badalado show da banda Guns N' Roses, não é um ponto final a este escândalo, mas apenas o ponto de partida.

São várias camadas e informações estranhas e incompatíveis com o que se espera de uma administração pública. A começar pela liberação do local, assinada pelo agora ex-secretário, em um documento apócrifo que não especificava sequer o local que seria explorado. Assinada um dia antes do evento, a tal autorização não foi publicada no Diário Oficial nem no site da Prefeitura, contrariando os princípios constitucionais da publicidade e da transparência.

O que já seria suspeito por si só ficou ainda pior, já que a entidade beneficiada com a exploração da Cidade da Criança é a obscuríssima Guasomafe, do município de Guaraci, cujo pretenso trabalho social desenvolvido pela instituição ninguém até o momento soube explicar.

A cereja do bolo é quem se beneficiou da exploração do local. O pagamento dos motoristas - R$ 100 por veículo - foi feito diretamente para o Pix de José Luís Pereira, agora ex-secretário de Finanças e Orçamento da Câmara de Rio Preto. Pereira, cujo salário é de R$ 14,9 mil, já informou que faz "bico" de motorista particular do vice-prefeito Fábio Marcondes (PL). Um assessor do vereador Bruno Marinho (PRD) também estava na Cidade da Criança, ajudando a "administrar" o estacionamento.

Ao ser questionada pelo Diário no dia seguinte ao show, a Prefeitura e o presidente da Câmara, Luciano Julião (PL), apressaram-se em defender os envolvidos, afirmando que uma lei de 2011 autoriza a cessão de espaços públicos a entidades assistenciais. Mas a entrada em cena do Ministério Público (MP), com investigação aberta pelo promotor de Justiça Carlos Romani, tornou a permanência de Kizumba no cargo insustentável.

A exoneração do secretário e o anúncio de um decreto para regulamentar o estacionamento em áreas públicas são decisões acertadas do governo. Porém, o assunto está longe de ser dado por encerrado.

De onde surgiu a tal entidade de Guaraci, e quem é o responsável por ela? Por que os pagamentos caíram diretamente na conta de um apadrinhado da Câmara, que também faz as vezes de motorista do vice-prefeito? Quanto foi arrecadado e como foi distribuído esse dinheiro? Esse tipo de concessão e exploração de espaços públicos já ocorreu em outros eventos na cidade? É importante lembrar, ainda, que o demitido Kizumba é vereador e, com a exoneração, voltará a ocupar sua cadeira na Câmara.

Em que pese a atuação de vereadores, que já começaram a investigar esse caso, e do Ministério Público, é essencial a atuação imediata dos poderes Executivo e Legislativo na abertura de sindicâncias internas. Afinal, essa trama toda não é obra de apenas uma ou duas pessoas, e é preciso seguir o velho jargão "follow the money" para saber quem são os beneficiados.

O episódio mostra o quão frágil era a fiscalização sobre a exploração de locais públicos em eventos, e que só veio à tona com reportagem deste Diário. Que sirva de lição daqui para frente, sem ignorar o que já pode ter ocorrido lá atrás, em situações semelhantes. O poder público deve essa resposta à sociedade.