E se o grupo for melhor que você?
Em nível celular, é possível identificar exemplos dessa “sabedoria das multidões”

“A união faz a força”, “Se quiser ir rápido, vá sozinho; se quiser ir longe, vá acompanhado”, “Uma andorinha só não faz verão”, “A corda de três dobras não se rompe facilmente”. Existem muitos ditados populares que nos remetem à noção de comunidade e mostram como somos mais fortes e conseguimos mais quando estamos unidos. A natureza, claro, também nos dá exemplos de como esses ditados vão além das experiências criadas pela cultura da nossa sociedade.
Existem muitos animais sociais, como formigas e cupins, que conseguem, em união, muito mais do que como indivíduos. As formigas da espécie Oecophylla smaragdina fazem ninhos dobrando folhas de árvores, em um esforço coordenado de dezenas ou centenas de parceiros. Uma rápida pesquisa no Google com o nome dessa espécie permite apreciar a variedade de ninhos que elas conseguem construir. O biólogo Chris Reid, da Universidade Macquarie, na Austrália, liderou um grupo de pesquisadores que demonstrou que formigas trabalhando em equipe conseguem dobrar folhas, exercendo uma força maior do que conseguiriam individualmente.
Essa capacidade de alcançar mais em grupo contraria o famoso Efeito Ringelmann, desenvolvido pelo engenheiro agrícola francês Max Ringelmann, que mostrou que, em geral, as pessoas tendem a se esforçar menos em trabalhos em equipe.
As bactérias também demonstram uma forma de coletividade no que é descrito como quorum sensing, em que a ação sincronizada de uma população bacteriana é utilizada para um propósito que beneficia o grupo, como a formação de biofilmes.
O nosso sistema imunológico também utiliza uma estratégia semelhante para regular as respostas imunológicas e limitar a ação anti-inflamatória aos locais onde ela é necessária, conforme pesquisa liderada pelo bioquímico Joshua Leonard, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.
Em nível celular, portanto, é possível identificar exemplos de que essa “sabedoria das multidões” realmente acontece e funciona. As formigas oferecem vários exemplos no dia a dia. Mas será que a nossa sociedade também consegue demonstrar que o trabalho em equipe pode, de fato, beneficiar a maioria?
Deve haver muitos exemplos de como essa “democracia” pode funcionar bem, mas escolhi um caso inusitado: o jogo de xadrez. Se você, assim como eu, conhece as regras, mas nunca estudou profundamente esse jogo milenar, pode ser derrotado facilmente ao enfrentar um jogador mais experiente ou um computador em nível avançado. E quais seriam as chances de resistir a uma partida contra um dos melhores jogadores de todos os tempos? Praticamente nulas.
Agora imagine 143 mil pessoas escolhendo coletivamente o melhor movimento em uma partida contra o então número um do mundo, o sueco Magnus Carlsen. Ele é o mais jovem a alcançar o topo em toda a história, com apenas 19 anos. Nesse cenário, a multidão conseguiu arrancar um empate, um feito notável. Os participantes tinham um dia para votar no melhor movimento, e o lance mais votado era executado na partida. Ao final, Carlsen elogiou o desempenho do “resto do mundo”.
A nossa sociedade é complexa, erramos com frequência, e nem sempre as decisões coletivas são as melhores. Ainda assim, há esperança de progresso. Para isso, é fundamental que todos estejam conscientes e comprometidos em fazer o melhor possível.
Fábio Rogério de Moraes
Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP.