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PAINEL DE IDEIAS

Divino e Donizete

Tiveram também uma longa convivência profissional – viagens, shows – com outros ícones da música brasileira durante esses anos todos – o mineiro Tião Carreiro, da dupla com o paulista Pardinho

por José Luís Rey
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
José Luís Rey (Divulgação)
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José Luís Rey (Divulgação)
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Os irmãos rio-pretenses Divino Antônio dos Santos e Aparecido Donizete dos Santos conquistaram lugar de honra no panorama da música sertaneja brasileira ao longo dos últimos cinquenta anos. Criaram alguns dos maiores hits do gênero, respondem por composições épicas da chamada “música caipira”. Ganharam alguns dos principais prêmios do segmento e apresentaram-se em palcos sagrados pelo Brasil, entre os quais o do Parque do Peão, em Barretos.

A notoriedade conquistada pelo trabalho da dupla projetou Divino como um dos mais admirados violeiros do Brasil e Donizete como o poeta de cerca de seiscentas letras, algumas consagradas em todo o País, como nas canções “Chamada a Cobrar”, “Eu Sou Piracicabano”, “A Garça”, “O Rei da Cana”, “Caipirão” “Velho Amor”, “A Grande Montanha! entre muitas muitas outras.

Mas nunca se afastaram da simplicidade de uma vida iniciada pelas ruas da Vila Aurora, hoje um dos bairros da região central de Rio Preto. Tiveram também uma longa convivência profissional – viagens, shows – com outros ícones da música brasileira durante esses anos todos – o mineiro Tião Carreiro, da dupla com o paulista Pardinho. Dessa convivência, resultaram histórias saborosas e reveladoras de um senso de humildade e grandeza que às vezes Divino e Donizete gostam de relembrar em suas entrevistas e depoimentos. Em 1974, de passagem por Rio Preto, Pardinho ouviu no automóvel a dupla rio-pretense e comentou com o motorista e e secretário pessoal:

- Veja só, Garcia, as rádios aqui de Rio Preto tocam muito as músicas que eu e Tião gravamos, não?

Espantou-se assim que o locutor anunciou que tinham ouvido Divino e Donizete, que, em início de carreira, faziam questão de imitar com perfeição o estilo dos dois ídolos, já então projetados nacionalmente.

A descoberta instigou Pardinho a informar-se sobre quem eram aqueles dois cantores regionais e o secretário pessoal foi enviado à casa de Divino e Donizete, levando a proposta de que o segunda voz, então com 18 anos, substituísse Tião Carreiro num show marcado para aquela noite em um circo na cidade de Tabapuã. Não precisou ouvir duas vezes:

- É claro que eu vou! – decretou, iniciando a história de larga convivência.

Na ocasião em que viajavam para Ituiutaba, pernoitaram em Frutal para seguir viagem no dia seguinte. Resolveram passar na casa de um antigo conhecido – um político local conhecido como dr. Címbio, que era fã de Tião Carreiro e admirador incondicional de suas músicas. Para adverti-lo de sua presença diante da casa, iniciaram uma serenata em homenagem ao visitado. Antes de que o homenageado aparecesse na janela com lágrimas nos olhos, notaram que um ciclista que passava pelas imediações, estacionou a bicicleta do outro lado da rua e decretou em voz alta:

- Rapaz! Esse caboclo que está cantando de segunda voz aí, não fica devendo nada pro Tião Carreiro, não, viu?

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos