Depois do aplauso

Embora o teatro nos ofereça uma experiência muito diferente daquela mediada pelas telas, nem todo espetáculo permanece depois que as luzes se apagam. Alguns terminam ali mesmo, no fechamento das cortinas. Outros, porém, continuam conosco no caminho de volta para casa. Foi o que aconteceu após assistir, em São Paulo, à montagem de “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, protagonizada por Dan Stulbach. Fui a convite da produção e, após o aplauso, pude conversar brevemente com integrantes do elenco. Saí do teatro com uma pergunta incômoda: como certos preconceitos conseguem atravessar tantos séculos?
A peça foi escrita entre o fim do século XVI e o início do XVII, em um contexto que não pode ser ignorado. Quando Shakespeare criou Shylock, os judeus estavam oficialmente banidos da Inglaterra havia mais de trezentos anos. A expulsão, decretada por Eduardo I em 1290, só seria formalmente superada em meados do século XVII. Isso significa que boa parte do público das primeiras apresentações provavelmente jamais havia convivido com um judeu – e daí vem o mito de que Shakespeare nunca teria conhecido um judeu. E esse é um dado que muda a leitura da obra.
Muitos ingleses conheciam os judeus não pela experiência direta, mas por sermões, lendas, boatos e preconceitos acumulados. Quando não há convivência, a caricatura ocupa o lugar da pessoa. Passa-se a odiar não alguém real, mas uma imagem herdada, repetida e quase nunca examinada.
Harold Bloom, em “O Cânone Ocidental”, sustenta que Shakespeare ocupa posição singular na literatura porque seus personagens continuam falando a diferentes épocas e leitores. Se isso é verdade, Shylock talvez seja uma das provas mais difíceis dessa força. Ele não é apenas um personagem; é um campo de tensão entre preconceito e humanidade, exclusão e reconhecimento, caricatura e dor, nuances brilhantemente exploradas por John Gross na obra “Shylock: quatrocentos anos de vida de uma lenda”.
Historicamente, sua figura foi associada a imagens negativas que atravessaram a cultura ocidental: o judeu rico, avarento, ligado ao dinheiro, vingativo, incapaz de compaixão. Esses estereótipos não nasceram com Shakespeare, mas encontraram na peça uma de suas representações mais duradouras.
O desconforto de “O Mercador de Veneza” está justamente aí. Shakespeare reproduz preconceitos de seu tempo, mas não se limita a eles. Em determinado momento, concede a Shylock uma fala que ainda atravessa o espectador. O personagem pergunta se um judeu não tem olhos, mãos, órgãos, sentidos, afetos e paixões como qualquer outro ser humano. De repente, a caricatura respira. O homem que deveria caber no estereótipo escapa dele e a desumanização aparece, sem filtros.
E, para quem atua em projetos de educação, memória e enfrentamento ao antissemitismo, essa experiência no teatro acaba por produzir uma reflexão inevitável. O preconceito raramente sobrevive pela força dos fatos, mas pela força das histórias que aprendemos a repetir sem investigar de onde vieram.
Ao sair do teatro, não me perguntei se Shakespeare era culpado ou inocente das ideias de seu tempo, assim como já tratei nesse espaço de questão semelhante sobre Monteiro Lobato. Naquela noite, voltando para o hotel, a pergunta era outra: quantas imagens herdadas do passado continuam circulando entre nós como se fossem verdades?
Talvez seja essa uma das funções dos grandes clássicos. Eles não existem para confirmar nossas certezas, mas para nos obrigar a pensar melhor. O aplauso encerra o espetáculo. A reflexão, quando a obra é grande, permanece.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados