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Olhar 360

Competitividade não combina com corrupção

A corrupção deteriora a confiança nas instituições, afasta investimentos, aumenta a percepção de risco, encarece o crédito, reduz a eficiência do Estado e desestimula quem pretende produzir

por Henry Atique
Publicado em 19/06/2026 às 19:47Atualizado em 19/06/2026 às 19:49
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O Brasil voltou a decepcionar no Ranking Mundial de Competitividade. O país caiu sete posições e agora ocupa a 65ª colocação entre 70 economias avaliadas. Os diagnósticos são conhecidos: juros elevados, baixa produtividade, educação deficiente, infraestrutura insuficiente, burocracia excessiva e um ambiente de negócios que ainda inspira pouca confiança.

O Brasil é um país que reúne praticamente tudo o que as grandes economias gostariam de ter. Possui um mercado consumidor expressivo, enorme produção agrícola, riquezas minerais, matriz energética relativamente limpa, abundância de água (apesar de uma redução persistente), diversidade econômica e uma população reconhecidamente empreendedora. Ainda assim, permanece muito distante das nações mais competitivas do mundo.

A resposta não está apenas na economia. Ela passa, sobretudo, pela qualidade das instituições. Nenhum país alcança elevados níveis de competitividade quando boa parte da energia de seus dirigentes é consumida por sucessivos escândalos de corrupção, crises políticas e disputas voltadas muito mais à autopreservação do que à construção de políticas públicas.

Enquanto países que lideram os rankings discutem inteligência artificial, inovação, educação de excelência, infraestrutura logística, simplificação tributária e aumento de produtividade, o Brasil frequentemente se vê absorvido por escândalos de corrupção.

O caso do Banco Master ilustra bem esse cenário. Independentemente da responsabilidade de cada pessoa mencionada – que deve ser apurada com absoluto respeito ao devido processo legal –, o episódio destaca a recorrente proximidade entre interesses privados e centros de poder político e institucional. Mais uma vez, a agenda nacional deixa de ser o desenvolvimento para voltar-se à administração de uma crise.

O problema é que a corrupção produz efeitos que vão muito além do dinheiro eventualmente desviado. Ela deteriora a confiança nas instituições, afasta investimentos, aumenta a percepção de risco, encarece o crédito, reduz a eficiência do Estado e desestimula quem pretende produzir, empreender e gerar empregos.

Investidores não observam apenas indicadores econômicos. Eles analisam a estabilidade institucional, a previsibilidade das decisões públicas, a segurança jurídica e a capacidade de um país concentrar esforços em agendas de longo prazo. Ambientes marcados por crises permanentes tendem a ser vistos como ambientes de maior risco. Esse talvez seja o maior custo da corrupção: ela sequestra o futuro.

O desafio é institucional. Executivo, Legislativo e Judiciário possuem papéis distintos, mas igualmente relevantes na construção de um ambiente íntegro, eficiente e confiável. Quando qualquer deles se vê envolvido, direta ou indiretamente, em crises que desviam sua atenção da missão constitucional, toda a sociedade paga a conta.

O Brasil não é pobre em potencial. É pobre na capacidade de transformar suas vantagens naturais em desenvolvimento sustentável. Não nos faltam recursos, talento ou oportunidades. Faltam instituições capazes de dedicar sua energia àquilo que realmente importa.

Enquanto parcela significativa das autoridades dos três Poderes permanecer concentrada apenas na própria sobrevivência política ou institucional, o Brasil não avançará, mas continuará desperdiçando, ano após ano, a oportunidade de ocupar o lugar que o nosso país efetivamente poderia ter entre as grandes nações do mundo.

O Brasil não fracassa por falta de potencial. Fracassa porque ainda não conseguiu construir um ambiente institucional capaz de colocar o interesse público acima dos interesses particulares. E enquanto essa realidade não mudar, dificilmente realizaremos tudo aquilo que somos capazes de alcançar.

Henry Atique

Advogado, professor, ex-presidente da OAB Rio Preto e conselheiro estadual da OAB/SP