Colaborar, conectar e confiar
O ecossistema de inovação que precisamos construir funciona da mesma forma: cada agente, no seu papel, construindo algo muito maior do que imagina

O que você pensa sobre colaboração e como tem sido sua relação com o entorno?
Quando vivemos em uma cidade de 500 mil habitantes, percebemos raramente o que acontece nos bairros, das entidades de classe, das organizações sociais e religiosas. Há muitas iniciativas isoladas — dedicadas, comprometidas — mas que não alcançam o impacto que poderiam ter se fossem compartilhadas. Ficam encerradas entre as paredes onde nasceram.
Um ecossistema de inovação é formado por quatro grandes atores: universidades e escolas técnicas, empresas e empreendedores, setor público e sociedade. Cada um com um papel distinto — mas todos interdependentes. E para que esse sistema funcione, três verbos são inegociáveis: colaborar, conectar e confiar. O que exige de nós uma decisão difícil — abdicar do ego. Cocriar. Construir junto. O protagonismo é de todos.
Pense na lógica: a sociedade tem necessidades e problemas reais. Para serem resolvidos, alguém precisa ouvi-los com atenção genuína. As universidades e escolas técnicas precisam formar talentos e gerar conhecimento com esse ouvido atento ao território. As empresas e empreendedores querem resolver esses problemas, transformando ideias em produtos e serviços — mas precisam dos talentos e do conhecimento produzidos pela academia. Quando isso acontece, criam-se postos de trabalho, desenvolvem-se soluções e retém-se localmente a mão de obra qualificada: ninguém precisa sair da cidade para crescer. E os governos precisam abrir caminhos: legislação, fomento, condições reais para que empresas e empreendedores possam prosperar aqui.
O resultado? Um ambiente de desenvolvimento e crescimento econômico que todos dizem querer.
Mas por que isso ainda não acontece de forma efetiva e contínua? Porque há iniciativas isoladas. Somos humanos — e carregamos uma incompatibilidade entre o que precisamos fazer e o que realmente fazemos.
Meu pai sempre nos trazia exemplos da natureza. Dizia que ela era sábia. Então os convido a olhar:
Uma colônia de formigas não tem chefe. Cada uma conhece apenas o seu papel — carregar, construir, defender, alimentar — e o executa com precisão. Nenhuma delas enxerga o formigueiro inteiro. Mas juntas, constroem algo extraordinário: túneis, câmaras, sistemas de ventilação, rotas de abastecimento. Uma arquitetura coletiva que nenhuma delas planejou sozinha.
Não é coincidência que o mundo do trabalho esteja caminhando para isso. As organizações mais ágeis e inovadoras caminham para estruturas mais horizontais e colaborativas, movidas por propósito compartilhado. E a tecnologia é o feromônio digital que torna isso possível: conecta, coordena e amplifica a ação coletiva. Autonomia com responsabilidade. Colaboração sem perder identidade.
Será que nos falta esse olhar mais amplo? Talvez estejamos tão focados nas nossas próprias frentes que ainda não encontramos os caminhos para nos enxergarmos como parte de um mesmo sistema — a nossa cidade.
O ecossistema de inovação que precisamos construir funciona da mesma forma: cada agente, no seu papel, construindo algo muito maior do que imagina.
Liszeila Martingo
Diretora de Relações Acadêmicas, Startups e Inovação