EDITORIAL

Cavalo de Troia

Espaços como o Parque Ecológico cumprem papel fundamental na qualidade de vida urbana, especialmente em uma realidade na qual muitas famílias não têm acesso a alternativas privadas de lazer

por Da Redação
Publicação em 04/04/2026
Editorial (Divulgação)
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“Não permitam que seus filhos se aproximem.” Essa é uma frase que faria todo sentido ser afixada em um canteiro de obras, um terreno em demolição ou uma área de risco da cidade. Mas é totalmente fora de propósito quando o alerta é colocado justamente em um local destinado a crianças.

O aviso em questão foi colocado na entrada do Parque Ecológico Danilo Santos de Miranda, em Rio Preto, pela própria coordenação do espaço público. O cartaz diz ainda que todos os brinquedos estão parcialmente danificados e que não devem ser utilizados por questão de segurança, exceto um chamado “Cavalo de Troia”.

Não deixa de ser irônico, se não fosse trágico, um brinquedo que remonta à ideia de um “presente de grego” (algo que parece bom, mas que na verdade é desastroso) ser o único acessível às crianças no parque que já foi sinônimo de excelência em convivência, lazer e inclusão para as famílias de rio-pretenses.

Não é razoável que, em uma área de 70 mil metros quadrados projetada para receber crianças, apenas um equipamento esteja em condições de uso, enquanto os demais apresentam danos visíveis, alguns com risco concreto de acidentes. Correntes rompidas, madeira quebrada e interdições improvisadas com fita zebrada não são sinais de manutenção preventiva, mas evidências claras de descaso.

Ao minimizar o problema como indisponibilidades “temporárias”, a administração não apenas ignora a experiência concreta das famílias, como também enfraquece a confiança da população na gestão pública. O cartaz afixado na entrada contradiz frontalmente o discurso oficial e revela desorganização ou tentativa de mascarar a gravidade da situação.

O impacto desse abandono recai diretamente sobre pais e crianças. Chega a ser surreal o relato de um pai que levou uma chave de fenda para apertar o parafuso de um dos brinquedos. Quando o cidadão se vê obrigado a assumir funções básicas do poder público, fica evidente que algo falhou de forma estrutural.

A resposta oficial, centrada na promessa de orçamento e futuras intervenções, soa tardia diante de um problema que já compromete a segurança dos usuários. A ausência de prazo concreto para os reparos reforça a sensação de improviso e falta de prioridade.

Não se trata, afinal, apenas de consertar brinquedos. Trata-se de restaurar a responsabilidade do poder público com a cidade. Espaços como o Parque Ecológico cumprem papel fundamental na qualidade de vida urbana, especialmente em uma realidade na qual muitas famílias não têm acesso a alternativas privadas de lazer.

Que a dignidade do Parque Ecológico Danilo Santos de Miranda seja restaurada o quanto antes pela Secretaria de Educação, para que o local deixe de ser um “cavalo de Troia” para milhares de famílias rio-pretenses.