ARTIGO

Carta para uma avó que não conheço

Em alguns momentos, eu gosto de pensar que te vejo em algumas senhoras pretas

por Alexandre Felipe de Oliveira
Publicado em 25/05/2026 às 19:56Atualizado em 26/05/2026 às 08:05
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Vó, eu queria começar essa carta te chamando pelo nome, mas não a conheço. Eu agradeço ao Universo por ter sido adotado, eu digo que tive sorte; é como se Deus olhasse pra mim e dissesse: “Eu vou dar pais muito melhores para ele!”; mas, com isso, os meus antepassados de sangue se perderam. Eu não os conheço, eu não te conheço.

Em alguns momentos, eu gosto de pensar que te vejo em algumas senhoras pretas. Esses tempos atrás eu estava no forró e tinha uma senhorinha tão familiar, de cabelos brancos, olhos de jabuticaba e com um vestido de renda. Eu acho que ela se parece com você (posso te chamar de você?), mesmo não te conhecendo. Sei que não é racional, é o que eu senti, ainda mais quando a chamei para dançar comigo.

No terreiro que eu frequento, eu acho que vejo a senhora nas giras de pretos velhos, com seu sorriso frouxo e sua sabedoria simples nas palavras. Se não for, já é. Essa busca, que é algo que eu nunca tinha parado para pensar, agora percebo que sempre existiu.

Seu neto aqui se formou em duas faculdades, se tornou psicólogo e cuida das dores dos outros. Quem diria? E você, o que sente? O que dá para dizer de concreto da nossa relação de não-lugar é a ausência. Eu nem sei se a senhora sabe que um dia teve eu de neto, mas esses “talvezes” me dão a possibilidade de acreditar em um final que de alguma forma faça sentido e me alimenta.

Mesmo que a gente nunca tenha trocado palavras, percebo que essa distância me ensinou a buscar em mim aquilo que poderia ter sido seu legado: a coragem de ser inteiro, a resiliência diante das dores e o amor silencioso que pulsa na nossa raça.

Eu, com quarenta e três anos, tenho tantas dúvidas ainda, mas agradeço, porque, de alguma forma, eu tenho a certeza de que a força que eu sinto vem também de um passado potente de ancestralidade que me atravessa e vai se movimentando além de mim até hoje. Eu gosto de pensar assim.

Você é um capítulo não escrito da minha história, mas que agora compreendo que eu levo comigo como se estivesse sempre presente. Não sei se algum dia, se ainda estiver viva, nos cruzaremos por aí, mas, até que esse momento chegue, eu vou te encontrando nos olhares das diversas mulheres negras que me inspiram e me fortalecem para eu continuar.

Hoje, essa carta é um encontro, uma ponte entre o que foi e o que ainda pode florescer. Eu te celebro, minha vózinha, por ser essa raiz que, mesmo desconhecida, me sustenta e inspira. Te peço benção! Que a senhora esteja bem onde quer que esteja!

De seu neto que te honra – Alexandre. Desconfio que você me chamaria de Xandy.

Alexandre Felipe de Oliveira

Psicólogo.