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PAINEL DE IDEIAS

Carnaval, carnavalização

Em muitos casos, afrouxa-se o pacto com os deveres, abolem-se uniformes e adotam-se fantasias nos acordes do mundo às avessas

por Romildo Sant’anna
Publicação em 10/05/2026
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Ao escutarmos versos conativos do tipo “Ei, você aí, / me dá um dinheiro aí!” emergem perguntas instantâneas: seria um folgado proclamando-se como “vulnerável” a pedir donativos? Carnaval, festejos surgidos em antigos tempos entrando em eras cristãs. Distingue-se por atos desconstrutivos, a polifonia dos deboches. Em muitos casos, afrouxa-se o pacto com os deveres, abolem-se uniformes e adotam-se fantasias nos acordes do mundo às avessas. Instauram-se a embriaguez dionisíaca, a aceitação aos excessos e império de improvisos. Induzem pessoas a rirem à-toa, ao desfazimento das normas e dessacralização dos dogmas e ritos. Instituem-se indultos às vulgaridades, às deformações pelos disfarces e consequente abandono da identidade em que alguém vira ninguém.

No balcão do boteco há um folião frouxo, suado, de tanto se esgoelar. Em lances de lucidez lhe vêm consolos de que a máscara o emancipa. Mas tal liberação o faz desfilar em caricatos fantoches de si mesmo misturado à multidão. Num instante de alumbramento, lembra-se do que Aristóteles ensinou nos velhos tempos: Na face torpe e ridícula da comédia emerge a seiva da tragédia pois, antes de tudo, futuca-lhe na alma a caçoada de si. Ante o espelho da privada onde foi vomitar, já não consegue discernir sobre quando termina seu rosto e começam as dissimulações.

Formas carnavalescas sedimentam normas, costumes. O filósofo russo Mikhail Bakhtin (‘Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento’, 1965) foi precursor das reflexões sobre a “carnavalização da vida”. Construiu chaves de leituras sociais. No Brasil, destacam-se estudos etnológicos de Roberto DaMatta em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’ (Rocco, 1997) e Antonio Candido no ensaio ‘Dialética da Malandragem’.

Problema maior é quando, além das calendas de momo, o carnavalismo se alastra pelos meses. Anarquia, falência da sobriedade, a tolerância a atitudes venais, chanchadas institucionais e a caricatura repicam estridentes como tamborins desafinados nos corsos da vida. Carnavalizam-se os preceitos da justiça e torna permissivo que uns poucos tudo possam decretar. É quando a Nobreza de Toga em altas cortes agem ao preceito autoritário do arbítrio a impor desonras forenses, legitimando crimes. Abocanham soberbos privilégios, cavilam preceitos a serem cumpridos.

Nesses contextos, a sociedade assiste ao copioso desfile da gandaia, a prevalência dos insultos. Consolida-se a confraria dos parasitas a exigirem com cinismo por “um dinheiro aí”, na certeza de gozarem de imunidades sancionadas pela aliança de capangas carnavalizados. As avenidas se acomodam ao samba dos astutos a entoarem marchas evasivas, anestesiantes: “Olha a cabeleira do Zezé!”. Enquanto a população se olha alarmada e desprovida, os mesmos pierrôs a inquirem, fazendo-se de tontos: “Será que ele é, / será que ele é?”.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos