Caneta que emagrece até a alfândega
O produto conseguiu uma façanha improvável: saiu dos consultórios, entrou nas redes sociais e chegou ao mundo do contrabando

Temos Carnaval, futebol, feijoada, pão de queijo, cafezinho e, mais recentemente, uma paixão nacional: as canetas emagrecedoras.
A febre foi tamanha que o produto conseguiu uma façanha improvável: saiu dos consultórios, entrou nas redes sociais e chegou ao mundo do contrabando.
Agora, além de apreender produtos ilícitos tradicionais, a polícia também encontra caixas e mais caixas de canetas destinadas a fazer desaparecer alguns quilos. O criminoso, aparentemente, quer emagrecer o cliente antes de engordar a própria conta bancária.
As apreensões cresceram de maneira impressionante. Na região de Foz do Iguaçu, milhares de canetas já foram apreendidas. Em uma das operações, uma van transportava quase seis mil unidades. É praticamente uma papelaria inteira, só que especializada em emagrecimento.
A situação ficou tão cinematográfica que até as operações ganharam nomes sugestivos. A Polícia Federal e a Anvisa deflagraram a Operação Heavy Pen, algo como “Caneta Pesada”.
O nome é perfeito. Afinal, nunca uma caneta teve tanto peso na balança.
Durante décadas, o brasileiro atravessava a fronteira para comprar eletrônicos e cigarros. Agora, existe gente disposta a correr risco para voltar com uma caixa de tirzepatida.
É a evolução do contrabando: antigamente se escondia cigarro na mala; agora escondem caneta para perder barriga.
Mas a brincadeira termina quando lembramos que estamos falando de medicamentos.
Uma caneta emagrecedora não é cosmético nem suplemento. É medicamento, com substância farmacologicamente ativa, que exige procedência, armazenamento adequado, validade e acompanhamento médico.
No mercado clandestino, ninguém sabe exatamente o que está comprando. Pode ser falsificado, adulterado ou mal armazenado. A promessa de perder cinco quilos pode acabar fazendo o paciente ganhar um problema bem maior.
A procura é enorme e a ansiedade para emagrecer rapidamente é ainda maior. Pronto: temos a receita perfeita para o comércio ilegal.
Queremos emagrecer depressa, pagar pouco, receber em casa e, se possível, não fazer perguntas.
“É original?” “É.” “Tem nota?” “Não.” “Precisa de receita?” “Imagina!”
E lá vai o cidadão comprar pela internet aquilo que deveria adquirir com orientação e segurança.
Talvez seja o momento de lembrar que não existe atalho seguro para tudo. A caneta pode ajudar muita gente, quando bem indicada e corretamente utilizada. Mas não transforma saúde em produto de liquidação.
E, convenhamos, se continuarmos nesse ritmo, daqui a pouco a alfândega vai precisar de uma seção especial.
“Senhor, declare o que está trazendo.” “Duas malas de roupa, um perfume e 14 quilos de esperança.” “Alguma coisa para declarar?” “Só esses três quilos que eu ainda estou tentando perder.”
No fundo, conseguimos transformar até a vontade de emagrecer em oportunidade para o mercado paralelo.
E talvez a única caneta que realmente não deveria faltar seja aquela usada pelo médico para escrever a receita.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme