RADAR ECONÔMICO

Biocombustíveis e segurança energética

Com o petróleo sob pressão geopolítica, países ampliam o uso de etanol e biodiesel, e o modelo brasileiro se consolida como referência de competitividade e resiliência

por Jacyr Costa Filho
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Jacyr Costa Filho (Jacyr Costa Filho)
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A guerra no Oriente Médio segue pressionando o preço do petróleo, trazendo a segurança energética para o centro do debate na economia mundial. Preço do petróleo subindo, os combustíveis encarecem e os efeitos se propagam rapidamente pela inflação, pelo transporte e pelos custos de produção. No caso do agronegócio, essa relação é ainda mais sensível, já que o diesel é um insumo fundamental para plantio, colheita e transporte da produção.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular. Ao longo de décadas, o país estruturou um programa robusto de biocombustíveis que hoje se revela um ativo estratégico. Etanol e biodiesel cumprem um papel central ao reduzir a dependência de combustíveis fósseis e amortecer os efeitos da volatilidade internacional. Trata-se de uma política pública construída com consistência, que integrou produção agrícola, indústria e distribuição em larga escala.

E o modelo brasileiro começa a ser replicado mundo afora. A Indonésia avança na ampliação da mistura obrigatória de biodiesel, com metas ambiciosas, como o B50 (50% da mistura). A Argentina autorizou a elevação do percentual de etanol na gasolina. Na Índia, cresce o incentivo aos veículos flex e ao uso de etanol como parte de uma estratégia que combina qualidade do ar, redução de emissões e menor custo energético. Nos EUA, decisão recente da Agência de Proteção Ambiental liberou, de forma emergencial, a comercialização de gasolina com maior teor de etanol durante o período de maior consumo, visando reduzir riscos de desabastecimento.

Há razões estruturais para esse movimento. Biocombustíveis ampliam a previsibilidade ao reduzir a exposição direta às oscilações do petróleo. Contribuem para a competitividade ao diversificar a matriz energética e reduzir custos sistêmicos. E permitem avanços na agenda ambiental sem comprometer a produção. No caso brasileiro, soma-se a isso a escala. O país reúne condições únicas de produtividade, tecnologia e integração de cadeia, o que amplia sua capacidade de resposta em cenários adversos.

Não por acaso, análises recentes da imprensa internacional passaram a tratar os biocombustíveis como uma espécie de “seguro estratégico” do Brasil diante de choques no petróleo. Em um ambiente global mais instável, energia deixa de ser apenas um tema econômico e passa a ocupar um papel central na segurança dos países.

O que se observa agora é uma mudança de percepção. Países que antes tratavam os biocombustíveis como uma agenda secundária, associada exclusivamente à transição energética, passam a incorporá-los como instrumento de política econômica e geopolítica. Essa inflexão reforça a importância de decisões tomadas no passado e evidencia o valor de políticas públicas de longo prazo.

O desafio, daqui para frente, é não perder esse diferencial. Preservar e ampliar essa vantagem exige previsibilidade regulatória, continuidade de políticas e estímulo à inovação. Em um mundo cada vez mais exposto a choques externos, ter alternativas ao petróleo não é escolha, é necessidade. E, nesse ponto, o Brasil larga na frente.

Jacyr Costa Filho

Vice-presidente do Cosag (Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp) e sócio da consultoria Agroadvice