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PAINEL DE IDEIAS

Berço da Civilização

O início do século 20 assistiu à demarcação de boa parte das terras indígenas dos caingangues. Isso não impediu, no entanto, que elas rapidamente começassem a ser cobiçadas, invadidas, dilapidadas e griladas

por José Luís Rey
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
José Luís Rey (Divulgação)
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José Luís Rey (Divulgação)
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Sempre que aparece a chance, o amigo Durval Noronha Goyos Junior, em suas frequentes palestras literárias jurídicas pelo Brasil ou pelo mundo, costuma referir-se a Rio Preto, sua cidade natal, de maneira tão insuspeitadamente exagerada quanto bairrista:

— Capital do mundo e berço da civilização!

Bom, é certo que alguns dos nossos leitores – a grande minoria, suponho – hão de não concordar com a superlatividade gentílica do Noronha, mas é preciso atentar para uma das bases de sua argumentação: a presença, pelos arredores da cidade, no limiar de sua colonização, dos índios Caingangues – ou Kaingangues, Kranhgag, Coroados, Botocudos ou outros nomes - que, pelo menos, durante dois séculos ocuparam extenso território, a partir das barrancas do rio Tietê, no noroeste paulista, até parte do Rio Grande do Sul. No século 20, seus domínios estenderam-se mais a oeste, atingindo a província argentina de Missiones, até reduzir-se, hoje em dia, a não mais que 300 pequenas áreas, onde vivem, se tanto, pouco além de trinta mil indivíduos.

O início do século 20 assistiu à demarcação de boa parte das terras indígenas dos caingangues. Isso não impediu, no entanto, que elas rapidamente começassem a ser cobiçadas, invadidas, dilapidadas e griladas. O oeste do estado de São Paulo, com o avanço do cultivo do café, foi alvo da penetração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil na primeira década do século passado.

Imaginemos, caso isso fosse possível, um diálogo imaginário entre dois jovens guerreiros Kaingangues perdidos nas matas frondosas de séculos atrás a jusante do Salto do Avanhandava.

— Que coisa maravilhosa este lugar, não é mesmo, Kairu? — pergunta o mais jovem, chamado Kramé, embasbacado com a formosura das cachoeiras, saltos, remansos e corredeiras que faziam fervilhar em espuma as águas do Tietê.

— Sem dúvida que é, Kramé. Pena que não vai durar para sempre — respondeu, lastimoso.

Os integrantes dos berços civilizatórios costumam saber das coisas…

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos.