As sequelas invisíveis da violência de gênero
Até na família, a dor da mulher é constantemente colocada em xeque

A celebração social da sobrevivência da mulher à violência doméstica esconde uma armadilha sofisticada do patriarcado. Ao promover o mito da "mulher guerreira" — aquela que, apesar dos abusos, continua produzindo e ocupando espaços públicos —, a sociedade opera uma manobra cruel de desoneração. Esse discurso romântico isenta o Estado de suas falhas e invisibiliza o agressor, sob o pretexto de que, se a vítima segue funcional, o estrago foi superado. Contudo, a realidade do pós-guerra cobra um preço diário e destrói a saúde física silenciosamente.
Longe de ser um problema sepultado no passado, as agressões físicas recorrentes, como socos, quedas e espancamentos, atuam como uma fábrica invisível de mulheres sequeladas. O machismo estrutural não deixa marcas apenas no campo psicológico; ele se materializa em traumas neurológicos, limitações motoras e lesões crônicas irreversíveis. Ignorar essas dores para tentar performar uma falsa integridade atende apenas à lógica machista dominante, que enxerga a vulnerabilidade e o reconhecimento das próprias limitações físicas como sinônimos de fraqueza.
Romper o silêncio sobre a deficiência adquirida em decorrência da violência significa enfrentar um tabu absoluto. A engrenagem social demonstra uma inversão perversa de valores: enquanto o agressor frequentemente desfruta de tolerância e esquecimento, a vítima que carrega no corpo as marcas da barbárie enfrenta o julgamento e o estigma públicos. É nesse cenário de extrema vulnerabilidade que o sistema aciona sua ferramenta mais violenta: a revitimização.
Em delegacias, tribunais, ambientes corporativos e até na família, a dor da mulher é constantemente colocada em xeque. Ela é forçada a carregar o fardo exaustivo de provar suas lesões e justificar seu sofrimento, sendo tratada, muitas vezes, como se fosse a culpada pelo crime sofrido.
O verdadeiro empoderamento feminino rejeita categoricamente a exigência de fingir integridade para agradar ao tribunal social. Esconder as marcas não é sinônimo de fortaleza. Promover uma ruptura radical desse tabu e expor as consequências físicas duradouras do machismo é um ato de resistência indispensável.
Exigir dignidade, acessibilidade e direitos para os corpos transformados pela violência não configura um pedido de socorro, mas sim um manifesto político que escancara a falência do sistema patriarcal. Esses corpos não são monumentos da violência; são trincheiras legítimas de luta.
Glau Ramires
Multiartista, Escritora, Artivista, Mulher PCD, Membra dos Coletivos Mulheres na Política e Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser. Fundadora do Coletivo Esperançar! e Coletivo Filhas de Fênix - Resiliência & Arte.