As raízes da violência contra mulheres
A opressão feminina opera nas esferas individual, familiar, profissional, comunitária e social

A violência contra mulheres é produto da interação de fatores psicológicos, relacionais, culturais, econômicos, jurídicos e históricos, sustentada nas desigualdades de poder, normas que legitimam a superioridade masculina, contextos sociais complacentes com a dominação e proteção institucional falha. O maior risco está no ambiente doméstico, onde controle, vigilância e punição da autonomia feminina acontecem de modo insidioso.
A opressão feminina opera nas esferas individual, familiar, profissional, comunitária e social. Os principais fatores incluem a exposição à violência na infância, abuso de álcool e outras drogas, controle e sanções legais frágeis. No mundo todo, uma em cada três mulheres sofreu violência física ou sexual, geralmente cometida por parceiros íntimos.
A brutalidade masculina não é uma questão biológica. Meninos e homens aprendem a associar macheza a domínio, invulnerabilidade emocional e autoridade sobre o corpo e a liberdade das mulheres. Quando o indivíduo percebe tal identidade ameaçada, a agressão se manifesta como tentativa de restaurar poder diante da frustração e do ciúme. Sentimento de posse, distorções sobre direitos e regulação emocional precária contribuem para essa dinâmica. A mulher deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ser tratada como propriedade e fonte de validação.
A criança que sofre maus-tratos, presencia agressões contra a mãe ou cresce em ambientes inseguros tem maior chance de reproduzir esses padrões na vida adulta. Ela aprende a resolver conflitos pela intimidação e que relações afetivas podem coexistir com medo. A violência não se reduz a falhas individuais de caráter; ela se insere em uma ordem social que confere aos homens maior poder econômico, sexual, político e doméstico.
Em muitas culturas, meninos são ensinados a reprimir vulnerabilidade e converter sofrimento em raiva, enquanto meninas são treinadas para contemporizar abusos. Nessa pedagogia desigual, a mulher é objetificada e o homem aprende a competir e conquistar, mas não a reconhecer sentimentos como vergonha, rejeição ou dependência afetiva. Sem linguagem para elaborar experiências negativas, a crueldade ocupa o lugar do diálogo.
O uso de álcool e outras drogas intensifica a gravidade das agressões, mas não cria a ideologia de posse nem a crença de que a mulher pode ser punida. O agressor alcoolizado age dentro de um roteiro de poder já existente. A dependência financeira, desigualdade social e ausência de rede de proteção dificultam o rompimento de relações abusivas. Muitas mulheres permanecem em situações degradantes por medo, filhos ou falta de recursos para sair. A violência se agrava quando gênero se combina com pobreza, raça e menor acesso à proteção estatal.
A violência contra mulheres não é simples perda de controle. O agressor não agride qualquer pessoa em qualquer contexto; ele escolhe alvos e circunstâncias nas quais acredita ter permissão ou impunidade. O feminicídio, em geral, é precedido por torturas psicológicas, ameaças, agressão física, sexual, digital e perseguição. Paradoxalmente, em contextos patriarcais, o aumento da autonomia feminina e a ruptura de vínculos coercitivos desafiam estruturas tradicionais de poder e podem intensificar conflitos em relações de dominação.
Reduzir a violência exige mais do que punição ou campanhas pontuais. Requer educação emocional, transformação das normas culturais, proteção institucional efetiva e fortalecimento da independência feminina. Não se trata apenas de ensinar homens a não agredir, mas de desmontar a matriz cultural que associa masculinidade ao poder sobre mulheres e substituí-la por relações baseadas em respeito e responsabilidade.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.