ARTIGO

As mulheres e os planos de emergência climática

O El Niño não cria desigualdades, ele as aprofunda. Quando a crise chega, o cuidado se expande

por Glau Ramires
Publicado em 21/08/2026 às 18:30Atualizado em 21/08/2026 às 18:33
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Há uma emergência diante de nós e ainda insistimos em tratá-la como questão exclusivamente meteorológica. O El Niño altera padrões de precipitação e temperatura, podendo favorecer ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e perdas agrícolas. Seus efeitos alcançam a segurança alimentar, a saúde, a renda e a vida cotidiana.

Não existe desastre socialmente neutro. Uma enchente pode destruir casas, interromper tratamentos, eliminar renda e ampliar a violência. Uma estiagem pode significar escassez hídrica e mais horas de trabalho não remunerado para buscar e administrar água. Uma onda de calor pode ser estatística para quem observa um gráfico, mas ameaça concreta para quem trabalha ao ar livre, cuida de dependentes ou sustenta sozinha uma família.

E quem absorve grande parte desse impacto? As mulheres. Não por uma suposta natureza cuidadora, mas porque o patriarcado historicamente socializou o cuidado como responsabilidade feminina, invisibilizando seu valor econômico e político.

O El Niño não cria essas desigualdades, ele as aprofunda. Quando a crise chega, o cuidado se expande. Quando faltam recursos, alguém precisa administrá-los. Esse “alguém” continua sendo, em grande medida, uma mulher. Onde estão as mulheres nos planos de emergência climática?

Quem considera mães solo, mulheres periféricas, rurais, idosas e cuidadoras? Quem garante água, saúde, renda, segurança e proteção contra a violência em deslocamentos e abrigos? E, sobretudo, onde estão essas mulheres nas estruturas de decisão e governança climática?

Não queremos ser incorporadas apenas como grupo vulnerável. Mulheres são produtoras de conhecimento, lideranças comunitárias, agricultoras, educadoras e formuladoras de soluções.

O alerta para 2026 precisa ser também político. Adaptação climática não pode significar apenas infraestrutura para resistir ao evento extremo. Precisa significar capacidade social de atravessá-lo sem aprofundar desigualdades.

Porque o futuro climático não será apenas uma disputa pela sobrevivência do planeta. Será uma disputa sobre qual sociedade sobreviverá dentro dele.

O planeta não distribui suas catástrofes por gênero. Mas o patriarcado distribui seus custos. Se queremos justiça climática, precisamos perguntar: quando o clima transformar nossa forma de viver, quem estará cuidando das mulheres? Quem estará ouvindo as mulheres que sempre cuidaram de todos?

Glau Ramires

Artivista, Escritora, Produtora Cultural/Editorial, Membra dos Coletivos Mulheres na Política e Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser, representante do Coletivo Esperançar! E do Ponto de Cultura Filhas de Fênix – Resiliência & Arte.