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Olhar 360

As facetas do trabalho

É preciso soberania sobre o tempo, mas se não há tempo fora do trabalho, não há o que administrar

por Monica Abrantes Galindo
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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A primeira vez que ouvi o termo “burnout” foi por volta de 2002. Dentro do contexto dos sintomas que esse tipo de estresse ocupacional revelava, achei que a melhor tradução para o termo seria uma falta de chama, uma chama que se esvai, considerando chama como sinônimo de vivacidade. No dicionário, “burnout” é traduzido como esgotamento ou consumir-se em chama, que é um pouco diferente da minha tradução livre, mas que de certa forma se relaciona. Consumir-se em chama é também uma forma de extinguir a chama.

Na época comprei um livro organizado pela professora Marilda Lipp, “O stress do professor”, no qual várias autoras e um autor discutem esse estresse, o qual aparece fortemente entre os professores, mas que de maneira mais ampla é um estresse das profissões com contatos interpessoais intensos e que envolvem idealismo, expectativas elevadas e difíceis de serem alcançadas. Nesse quadro entram os bombeiros, policiais, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, dentre outros profissionais e, obviamente os professores.

O estresse é uma resposta automática do nosso corpo a ameaças, estímulos ou desafios, ativando mecanismos de defesa, de fuga ou de luta. Nesse sentido, o estresse é extremamente positivo e necessário, fundamental para nossa sobrevivência. Quando ele vira um problema? Quando a frequência, a duração e o tamanho estão em doses muito grandes. O estresse crônico é sinônimo de doenças, com graves sintomas e consequências emocionais, mentais, físicas e comportamentais.

Como o estresse crônico é um fenômeno multifacetado, seu combate e prevenção passam por muitas ações, dentre elas, a atualmente tão difícil, administração do tempo. Ouvi esta semana que a questão do tempo, que tem incomodado a maioria de nós, passa mais pela pouca soberania do que pela pouca quantidade. Não é uma coincidência que autores - como o atualmente na moda, antropólogo Michael Alcoforado - têm dito que o grande elemento de ostentação atual de quem é rico de verdade é, para além dos bens materiais, a possibilidade de administração do seu próprio tempo.

É preciso soberania sobre o tempo, mas se não há tempo fora do trabalho, não há o que administrar. O tempo feminino na nossa sociedade, que ainda entende a criação dos filhos e a execução do trabalho doméstico como uma atribuição prioritariamente feminina; as classes menos abastadas financeiramente que, por definição, moram longe de seus trabalhos e têm que trabalhar muito mais para sobreviver, nos informam que tempo é fator de relógio, mas também de gênero, de raça e de classe. A diminuição da jornada de trabalho oficial para 5x2 não é uma panaceia para tudo isso, mas certamente contribuirá.

No mês do Dia do Trabalhador precisamos pensar no estresse ocupacional como doença, fator de mal-estar e comprometimento da própria atividade laboral. Além disso, é preciso também pensar na falta de trabalho para todos e na diferença de significados e possibilidades que o trabalho tem para cada um.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo