ARTIGO

“As árveres somos nozes”

Aquilo que nos sustenta passou a ser tratado como aquilo que podemos possuir

por Ingrid Zanata Riguetto
Publicado em 14/08/2026 às 21:09Atualizado em 14/08/2026 às 21:15
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O meme foi criado em 2006, no contexto de um cantor gospel com dificuldade de pronúncia. O verso é religioso, com o sentido de que, se conduzidos por Cristo, nossos frutos serão bons. No entanto, neste momento de mobilização social contra um projeto de macrodrenagem e revitalização urbana que visa cortar 945 árvores da Av. Murchid Homsi, a frase pode produzir outros efeitos de sentido.

A sociedade ocidental moderna, especialmente sob a lógica capitalista, construiu ao longo dos séculos uma espécie de empáfia diante da natureza: acreditando-se separada dela, autorizou-se a transformá-la segundo seus interesses. A crença na autonomia absoluta do indivíduo caminhou lado a lado com a ideia de que o mundo poderia ser convertido em recurso e propriedade. Assim, aquilo que nos sustenta passou a ser tratado como aquilo que podemos possuir.

Em 12 de agosto de 2026, a Câmara Municipal de São José do Rio Preto foi espaço de participação popular. A sociedade civil se movimentou para ocupar um espaço que, em uma democracia, deveria ser também seu: o espaço da palavra, da escuta e da decisão sobre aquilo que pertence à vida coletiva. O que estava em discussão, porém, não eram apenas 945 árvores; era uma determinada maneira de compreender a cidade e a relação que desejamos estabelecer com aquilo que não somos nós.

Porque o problema está justamente nessa separação. Quando se diz “as árvores”, colocamo-nos de um lado; quando se diz “nós”, colocamo-nos de outro. A gramática parece simples, mas carrega uma concepção de mundo. Nós somos humanos; elas são natureza; e as retiramos quando se tornam inconvenientes. Mas as árvores não são somente árvores, são sombra, umidade, abrigo, alimento, memória. São parte de uma rede de relações da qual dependemos. Cortá-las não é simplesmente retirar obstáculos do caminho de uma obra, é modificar uma experiência coletiva e uma determinada forma de existência urbana.

A frase do velho meme pode, então, ser deslocada de seu sentido original. “As árveres somos nozes” deixa de ser apenas um erro engraçado de pronúncia para tornar-se uma provocação filosófica. Se somos aquilo que produzimos, quais são os frutos de uma sociedade que destrói aquilo de que depende para viver? E talvez seja justamente aí que a ironia se desfaz. As árvores somos nós — não porque sejamos iguais a elas, mas porque não existimos sem elas.

Ingrid Zanata Riguetto

Psicanalista, pesquisadora e professora. Participante do coletivo Mulheres na Política.