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Você vai partir. Mas vai ficar?

É interessante como a morte física não consegue interromper aquilo que alguém deixa

por Simone Cristina Succi
Publicado em 22/08/2026 às 17:43Atualizado em 22/08/2026 às 17:50
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Nesta semana, o Brasil perdeu duas artistas que pareciam pertencer à própria memória do país: Laura Cardoso e Glória Menezes, que atravessaram décadas do teatro, do cinema e da televisão. Enquanto os jornais anunciavam as duas mortes, suas imagens voltavam a aparecer em cenas antigas, entrevistas e registros de bastidores, como se, de repente, elas estivessem novamente presentes. Isso acontece porque são lembradas, citadas, ouvidas e revisitadas.

É interessante como a morte física não consegue interromper aquilo que alguém deixa. É como uma canção que continua tocando, um filme que continua sendo visto, um personagem que continua emocionando ou uma frase que continua sendo repetida. Mas por que isso acontece com algumas pessoas e não com outras? Talvez porque a morte, sozinha, não decida quem permanece. O que fica de alguém é o significado que essa pessoa construiu na vida dos outros. Um artista, por exemplo, pode continuar presente porque sua obra encontra novos olhares que a admiram.

Isso também acontece com pessoas anônimas. Há professores que continuam vivos no fazer de seus alunos; avós que reaparecem em uma receita; amigos que retornam quando alguém reconta uma história. Pessoas que já morreram podem continuar participando, de alguma maneira, da vida de quem ficou.

Existe também o contrário: pessoas que não morreram, mas que, por alguma razão, desaparecem de nossas vidas. Isso acontece nas relações que se desfazem, nas amizades interrompidas, nas decepções amorosas. Elas continuam vivendo, trabalhando, andando pelas ruas, mas já não ocupam aquele lugar afetivo que um dia ocuparam.

A literatura conhece bem esse território. Em Quase Memória, Carlos Heitor Cony recebe um embrulho enviado pelo pai, morto havia anos. O narrador não abre a caixa, pois o que importa não é descobrir seu conteúdo, mas tudo aquilo que o embrulho desperta: lembranças, histórias e afetos. Então, o pai reaparece não porque voltou, mas porque a memória o devolve ao presente.

Talvez seja esse o poder mais bonito da memória: ela não vence a morte, mas impede que a ausência seja completa. Enquanto alguém for lembrado, contado, imitado ou reconhecido em pequenos gestos, continuará existindo de alguma forma.

Por isso, talvez a pergunta não seja simplesmente quem morreu. A pergunta mais interessante é: quem continua vivo depois que morre? A resposta talvez esteja nas marcas que deixamos. Algumas pessoas passam pela vida e desaparecem. Outras, sem perceber, deixam pedaços de si espalhados pelos caminhos dos outros. Parece que morrer é deixar de estar; ser esquecido é outra coisa. E talvez a arte, a memória e o afeto tenham esse poder: fazer com que algumas pessoas nunca partam dentro de nós.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.