Violência vicária: o grau mais perverso da covardia
Quando um homem mata os filhos para punir a mulher, temos a expressão da violência vicária

Este tema me angustia há tempos. Diante dos últimos acontecimentos — filhos ceifados da vida em nome do machismo para atingir suas mães e mães implorando para continuar vivas e poder criar seus filhos — tornou-se impossível se calar. É urgente ampliar as discussões sociais sobre as políticas públicas que enfrentam a violência vicária.
Há algo de brutalmente simbólico neste ato. Como se assistíssemos à atualização de uma fogueira onde o que se queima não é apenas o corpo da mulher, mas tudo aquilo que ela ama.
A psicóloga argentina Sonia Vaccaro nomeou essa estratégia: atingir a mulher por meio dos filhos. O nome não suaviza o horror. Apenas ilumina o mecanismo. Quando o agressor percebe que perdeu o controle, não ataca apenas o corpo — ataca o vínculo. Transforma o laço com os filhos em lâmina. Converte o afeto em punição. É aí que a violência revela sua face mais cruel.
Os filhos não são vítimas apenas quando mortos. São vítimas quando crescem em casas onde o silêncio pesa mais que os móveis. Quando aprendem a identificar o perigo no tom de voz. Quando a mãe é assassinada e se tornam órfãos não apenas de colo, mas de mundo.
Quando um homem mata os filhos para punir a mulher, temos a expressão extrema da violência vicária. Quando mata a mulher e deixa crianças órfãs, vemos a continuidade do mesmo sistema que entende nossas vidas como descartáveis. Em ambos os casos, o recado é o mesmo: controlar pela dor.
Avança na Câmara dos Deputados a proposta de incluir a violência vicária na Lei Maria da Penha, já aprovada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Nomear é retirar da sombra. É reconhecer juridicamente aquilo que tantas mulheres já denunciaram: a violência se reinventa quando ousamos romper.
Mas nenhuma mudança na lei bastará se continuarmos tratando denúncias como exagero e autonomia feminina como afronta. Precisamos de escuta qualificada, prevenção antes da tragédia e amparo real depois dela. Nós sabemos: sair não encerra a violência. Às vezes, é quando ela se intensifica. Vivemos um tempo em que o machismo se reorganiza. Quando descobre onde está nossa força — nossos filhos, nossos afetos — tenta transformar isso em fraqueza.
Mesmo quando uma mãe, como eu, vítima de violência, não é morta e consegue preservar a vida de sua criança, ainda assim, se uma mulher ou seus filhos passam por isso, todas nós sentimos a ferida aberta do moedor patriarcal dilacerando nossas irmãs e semelhantes. Basta!
Glau Ramires
Multiartista, Escritora, Artivista, Agente Territorial de Cultura, Membra dos Coletivos Mulheres na Política e Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser, e Fundadora do Coletivo Filhas de Fênix.