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ARTIGO

Vereadores de joelhos

Os nomes dos vereadores que votaram contra a investigação ficarão marcados nessa discussão

por Carlos Alexandre
Publicado há 57 minutosAtualizado há 55 minutos
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A Câmara Municipal de Rio Preto perdeu mais uma oportunidade de cumprir aquilo que deveria ser sua missão mais elementar. Fiscalizar o Poder Executivo. Ao rejeitar a abertura da Comissão Processante contra o prefeito Coronel Fábio Candido, a maioria dos vereadores escolheu novamente o caminho mais confortável da política brasileira: a blindagem do poder.

Não se tratava de condenar previamente ninguém. Não se tratava de cassação automática. Tratava-se apenas de investigar denúncias graves que já circulam amplamente pela cidade, envolvendo contratos públicos, gastos administrativos e procedimentos da atual gestão. Mas até isso a base governista decidiu impedir.

O recado dado à população foi péssimo: “não queremos olhar, não queremos apurar, não queremos trazer luz aos fatos”. E isso é especialmente grave numa legislatura que parece cada vez mais distante da verdadeira função do vereador.

Em vez de independência, boa parte da Câmara atua como extensão política do gabinete do prefeito. A sensação que fica é de uma política envelhecida, demodé, presa aos velhos vícios da troca de favores, da conveniência e da aposta arrogante na memória curta do eleitor.

Muitos ainda acreditam que basta atravessar o mandato protegendo o Executivo, distribuindo sorrisos, cargos e afagos políticos para depois reaparecer em período eleitoral fingindo independência. Mas os tempos mudaram. A população acompanha mais, registra mais, compartilha mais e cobra mais. E, sobretudo, não esquece com a facilidade que certos grupos políticos imaginam.

Os nomes dos vereadores que votaram contra a investigação ficarão marcados nessa discussão. Porque seus votos não impediram apenas uma comissão. Impediram que a cidade tivesse respostas. E isso tem peso político. A ironia é que muitos dos que hoje se recusam a investigar talvez sejam os mesmos que, em campanhas eleitorais, posarão de defensores da ética, da transparência e da moralidade pública. É o velho teatro da política tradicional. Rigor para os adversários, blindagem para os aliados.

Enquanto isso, a sociedade civil ocupou ruas, galerias da Câmara e redes sociais exigindo aquilo que deveria ser natural em qualquer democracia séria: a fiscalização. Houve mobilização popular, distribuição de panfletos, manifestações e pressão legítima da população. Não era um movimento por condenação antecipada. Era um clamor por investigação.

A rejeição da Comissão Processante talvez proteja momentaneamente o prefeito. Mas desgasta profundamente a imagem de um Legislativo que, aos olhos de muitos cidadãos, parece cada vez mais incapaz de exercer autonomia diante do Executivo. E fica um aviso importante, a saber, que essa votação não será esquecida. Nem pela população. Nem pela história política recente de Rio Preto.

Carlos Alexandre

Presidente municipal do PT Formado em Adm. Pública pela Federal de Ouro Preto.