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ARTIGO

Verde não é obstáculo

Quem foi consultado antes de elaborarem esse plano que atinge o coração do Aterradinho?

por Marival Correa
Publicado em 08/08/2026 às 17:44Atualizado em 08/08/2026 às 17:46
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Contam que em uma certa região da África havia uma grande quantidade de hipopótamos. E esses hipopótamos estariam atrapalhando a navegação, principal meio de transporte em um lugar dominado pelos rios. A solução encontrada parecia perfeita: dizimaram quase que por completo a população de hipopótamos, deixando o caminho livre para as embarcações.

O fato que desconheciam é que esses animais alimentavam-se da vegetação aquática que, sem um controle natural, passou a proliferar desordenadamente e obstruiu os caminhos navegáveis.

Agora é noticiado que pretendem dizimar quase mil árvores no canteiro central da avenida Murchid Homsi. Solução que julgam perfeita para resolver duas questões: a das enchentes e a da escassez de áreas verdes, uma vez que, na cabeça de quem vende essa ideia, Rio Preto ganharia, da noite para o dia, um parque linear com natureza exuberante. Será mesmo?

Quem exatamente foi consultado antes de elaborarem esse plano que atinge o coração do Aterradinho, o qual, como diz o nome, é um córrego já aterrado e canalizado para permitir a expansão urbana? E agora querem, simples assim, suprimir não uma dúzia de árvores, o que já seria questionável, mas 940 espécies que contribuem para um sombreamento cada vez mais raro dentro da cidade.

Seria mesmo essa a única solução, ou seja, cortar árvore para depois contar com o tempo, com a sorte e uma série de outros fatores para fazer nascer árvore onde já existe árvore? É uma equação, a meu ver, extremamente complexa, que demanda o posicionamento de especialistas.

Aí está o pessoal do Ibilce, imprescindível na discussão desse tema, por sua expertise de décadas e décadas de pesquisas. E, claro, demais técnicos de outras instituições, além da própria população diretamente afetada.

Existe, atualmente, um punhado de técnicas mais avançadas e muito menos drásticas. No Japão, por exemplo, quando uma árvore está no traçado de uma obra ou estrada, ela pode ser transplantada em vez de derrubada. É uma técnica chamada nemawashi, pela qual o conjunto, árvore e raízes, é içado por guindaste e replantado em outro lugar. A técnica existe. É mais cara do que uma derrubada. É menos cara do que duzentos anos de crescimento perdidos.

Recorrer a discurso raso e demagógico, como já visto em rede social, não contribui em nada. Tampouco é um processo para se apresentar como se fosse um acontecimento midiático, para angariar algum apoio público para uma gestão extremamente desgastada em tantas tomadas de decisão desastrosas.

Como aprendi com o professor Mozart Neves Ramos, ex-presidente do Instituto Ayrton Senna, determinadas ações devem ser obrigatoriamente políticas de estado, não de governos. Governos passam e não ficam pelo caminho. E, na maioria das vezes, sem fazer falta alguma. Em uma sina oposta a daqueles hipopótamos dizimados para dar lugar às embarcações. E a das árvores, cuja função vital é ignorada em nome de cliques e simpatias de ocasião.

Marival Correa

É jornalista.