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ARTIGO

(Um) ensaio sobre a cegueira: quando ver é um ato ético

Essa potência encontra terreno fértil na maturidade artística do Grupo Galpão

por Jorge Vermelho
Publicado em 27/07/2026 às 19:51Atualizado em 27/07/2026 às 19:55
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Há espetáculos que terminam quando as luzes da plateia se acendem. Outros permanecem reverberando porque deslocam o espectador do conforto para a inquietação. (Um) ensaio sobre a cegueira, do Grupo Galpão, com direção de Rodrigo Portella, pertence a essa segunda categoria.

Inspirado na obra-prima de José Saramago, o espetáculo parte da compreensão de que a cegueira nunca foi apenas física, mas também moral, política e afetiva. Como escreveu o autor: "Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem." A encenação transforma essa constatação em eixo dramatúrgico e convida o público a confrontar aquilo que insiste em não enxergar.

Rodrigo Portella evita a adaptação ilustrativa e constrói uma linguagem genuinamente teatral, preservando a densidade filosófica da obra original. Corpo, luz, música e silêncio articulam imagens de grande força poética, resultando numa encenação rigorosa, inventiva e profundamente sensível.

Essa potência encontra terreno fértil na maturidade artística do Grupo Galpão. Décadas de pesquisa e criação coletiva aparecem na absoluta sintonia entre os atores. Não há protagonismos isolados, mas um organismo cênico em que escuta, confiança e inteligência coletiva sustentam cada cena.

As metáforas de Saramago atravessam a montagem com renovada atualidade. A cidade sem nome torna-se qualquer cidade; os personagens tornam-se todos nós; e a mulher que continua enxergando simboliza a responsabilidade de permanecer humano quando tudo parece sucumbir.

Na apresentação do FIT Rio Preto, a decisão de solicitar que o público deixasse o celular de lado ampliou a própria experiência estética. Ao abandonar temporariamente o aparelho, o espectador também se afasta da avalanche de notificações e distrações que moldam nossa percepção. Nunca estivemos tão cercados por telas e, paradoxalmente, tão incapazes de olhar demoradamente para o outro. Nossa cegueira talvez já não seja branca, como em Saramago; ela é iluminada pelas telas que carregamos nas mãos.

O teatro recupera, então, sua força essencial: a presença compartilhada. Pessoas respiram juntas, dividem silêncios e voltam a olhar para o mesmo lugar. (Um) ensaio sobre a cegueira torna-se, assim, um ensaio para reaprender a ver.

Vivemos uma epidemia silenciosa de cegueira ética. Naturalizamos a violência, relativizamos a desigualdade e banalizamos a mentira. Não faltam imagens; falta-nos visão. Não nos faltam olhos; falta-nos humanidade.

Ao final, o público sai vendo exatamente como entrou, mas dificilmente continua olhando o mundo da mesma maneira. E, quando a encenação transborda para a rua, reunindo artistas e espectadores num canto coletivo, o espetáculo ultrapassa os limites do palco e afirma, em comunhão, um chamado à revolução ética, celebrando, enfim, a possibilidade de voltar a ver.

Jorge Vermelho

Ator, Dramaturgo e Diretor da Companhia Azul Celeste