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ARTIGO

Troca no comando da PM não esconde violência

São Paulo consolidou uma política de segurança baseada no confronto e na letalidade

por Claudinho Silva
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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A nomeação da coronel Glauce como comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo é, sem dúvida, um marco histórico. Pela primeira vez, uma mulher ocupa o posto mais alto da corporação. A escolha do coronel Kitswua como subcomandante, com atuação destacada na área de saúde mental, também carrega simbolismo.

Mas símbolos não mudam estruturas.

Sob o governo de Tarcísio de Freitas e a condução de Guilherme Derrite, São Paulo consolidou uma política de segurança baseada no confronto e na letalidade.

A movimentação de dezenas de coronéis não foi apenas administrativa — foi a captura política da Polícia Militar, afastando quadros comprometidos com a institucionalidade e abrindo espaço para uma lógica de alinhamento ideológico, jamais vista na história.

O resultado é concreto: crescimento da letalidade policial, operações com dezenas de mortos e uma sequência de violações que atingem sobretudo a população mais pobre e periférica.

Essa política também cobra seu preço dentro da corporação. Policiais morrem mais, adoecem mais e vivem sob pressão crescente, enquanto o discurso de valorização não se traduz em melhorias reais, ao contrário, fica cada vez mais evidente a existência dentro das corporações de uma casa grande e uma senzala.

A desigualdade entre oficiais e praças se aprofunda. A Polícia Civil é enfraquecida. A Polícia Penal permanece invisível.

A troca no comando da PM pode ser lida como tentativa de ajuste diante do desgaste. Mas, sem mudança de projeto, ela tende a operar como rearranjo interno de uma política que segue intacta.

O problema não é quem comanda. É o modelo que orienta a ação.

Claudinho Silva

Professor e ex-ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo.