Conjuntura

Transformações demográficas

Os países desenvolvidos podem adiar temporariamente os efeitos deste cenário com a imigração, mas o colapso da fertilidade é um problema macroglobal

por Hipólito Martins Filho
Publicado em 13/04/2026 às 22:48Atualizado em 13/04/2026 às 22:59
Hipólito Martins Filho (Hipólito Martins Filho)
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Sociedade com menos filhos vai provocar desajustes na economia, é uma tendência mundial.

O número de idosos no Brasil já supera o de crianças: são 32,1 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ante 26,4 milhões de crianças de até nove anos, segundo o IBGE. Os grupos representam, respectivamente, 15,8% e 13% da população nacional, de acordo com o último censo demográfico, de 2022.

Se comparado ao censo demográfico de 2000, houve um avanço significativo: lá os idosos somavam 8,6% e as crianças, 19,4% da população. Esse movimento confirma uma tendência estrutural — a base da pirâmide etária está encolhendo, enquanto o topo cresce rapidamente.

Para o demógrafo britânico Paul Morland, pesquisador associado da Birkbeck, Universidade de Londres, teremos um grande problema para a economia mundial daqui a 20 anos, já que países da América do Sul, Europa e Japão também estão com baixa taxa de natalidade.

O pesquisador preocupa-se com a rapidez deste processo. Na Coreia do Sul, o país enfrenta um declínio populacional acelerado: a cada 100 casais nascem 33 a 35 filhos, que dão origem a apenas 11 a 12 netos. É uma taxa de fecundidade de 0,72 a 0,75 por mulher. No Brasil, é de 1,55 por mulher — já abaixo do nível de reposição populacional, que é de 2,1.

As empresas estão se moldando para atender famílias cada vez menores. Neste ritmo, não teremos trabalhadores suficientes daqui a vinte anos para sustentar o sistema econômico e previdenciário, nem mesmo redes familiares de apoio.

Os países desenvolvidos podem adiar temporariamente os efeitos deste cenário com a imigração, mas o colapso da fertilidade é um problema macroglobal. É o trabalho que faz a economia girar — e haverá cada vez menos jovens trabalhando.

Os mais velhos tenderão a assumir comportamentos mais conservadores, arriscar menos capital e demandar mais cuidados. Ao mesmo tempo, os governos terão menos recursos para financiar saúde e previdência, já que menos pessoas estarão contribuindo. É o início de uma tempestade perfeita.

O pesquisador acredita que questões culturais afetam diretamente o baixo índice de natalidade, mas não considera que o “trabalho invisível” — que recai sobre as mulheres, responsáveis pelos cuidados com a casa e a família, além do trabalho remunerado — seja o principal fator.

No Brasil, o trabalho invisível representa cerca de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto), algo em torno de R$ 750 bilhões.

Os casais precisam ser encorajados e apoiados para ter filhos — com subsídios à moradia, educação, oferta de cuidados e maior flexibilidade no trabalho.

São grandes os desafios que uma sociedade com filho único ou sem filhos pode enfrentar: envelhecimento da população, pressão sobre o sistema de saúde e previdência, escassez de mão de obra, mudanças nos padrões familiares — com mais pessoas vivendo sozinhas — e impactos diretos na economia.

Uma população em declínio pode levar à redução do consumo, dos investimentos e do crescimento econômico.

As empresas já estão se adaptando a essa mudança demográfica. Começam a oferecer produtos e serviços mais voltados para casais sem filhos, como viagens, experiências e bens de maior valor agregado, focando no público mais maduro.

O marketing voltado para esse público, que tende a ter maior capacidade financeira, está mais agressivo. Há também maior flexibilidade e personalização de produtos e serviços, além de investimentos em tecnologia para melhorar a experiência do cliente e reduzir custos.

Para quem quer empreender, esse novo cenário abre oportunidades relevantes — mas exige leitura demográfica correta, adaptação rápida e foco em nichos que antes eram secundários e agora passam a ser centrais.