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Tanatose e gambás

É preciso destacar que os gambás são animais silvestres da fauna nacional, protegidos por lei

por Hermione Bicudo
Publicado há 4 horasAtualizado há 4 horas
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O estudo do comportamento animal (Etologia) é uma área rica em achados interessantes, mas pouco divulgados. Um deles se refere a um processo inato apresentado por alguns animais em situação de perigo, como o ataque de um predador. Esta forma de proteção é denominada Tanatose, palavra de origem grega, derivada de Thanatos (Deus da morte) e -osis (estado ou condição). A Tanatose nada mais é do que a capacidade de fingir-se de morto.

Nesse estado, além de permanecer imóvel, o animal sofre alterações fisiológicas, como redução dos batimentos cardíacos e dos movimentos respiratórios. Pode ainda imitar o animal congênere morto: enrijecido, barriga para cima, língua deslocada para o lado da boca, etc.

Este comportamento é instintivo, isto é, não é pensado conscientemente, mas tem base genética e já foi observado em vertebrados e invertebrados; uma reação selecionada pelo processo evolutivo que aumenta as chances do animal sobreviver em situações de alto estresse.

Os gambás (saruês e outros nomes regionais; gênero Didelphis) são animais da fauna brasileira incluídos no grupo que manifesta a Tanatose. Acontece que os gambás têm apresentado densidade populacional crescente em cidades e regiões do Estado de São Paulo, incluindo Rio Preto, causando preocupação especialmente quanto à segurança de crianças e animais de estimação, dada sua presença frequente nos jardins e quintais das casas.

Os gambás são mamíferos marsupiais de hábitos silvestres que foram expulsos de seu habitat natural onde se abrigavam nas árvores. Em nosso ambiente, abrigam-se onde dá, até mesmo no forro das casas. Têm hábitos noturnos. É possível vê-los, então, caminhando sobre muros, o pai à frente, seguido da mãe com os filhotinhos agarrados às suas costas. Comovente!

Sua alimentação é variada, predominando frutas, que, em geral, quando expostas, os atraem para o interior das casas. Comem insetos e outras “iguarias” como aranhas e cobras que os fazem importantes predadores para o ecossistema e isto envolve os perigosos escorpiões e o caramujo africano, transmissor de doenças graves. Um dado sobre os gambás, de grande perspectiva científica, refere-se à sua imunidade natural contra picadas de cobra, estudos em andamento no Instituto Butantã.

Quanto ao risco de sua presença entre nós, são considerados inofensivos; não atacam e preferem fugir, se acuados. Mas podem morder, se se tentar pegá-los, estejam em Tanatose ou não, e eventualmente, assim, transmitir a raiva. Menciona-se, ainda a chance de transmissão da Leptospirose, pela urina, e da Toxoplasmose, pelas fezes, sendo bom desinfetar áreas de casa por onde passarem.

E, por fim, é preciso destacar que eles são animais silvestres da fauna nacional, protegidos por lei: “É crime caçar, perseguir ou maltratá-los (lei 9.605/1998; pena de seis meses a um ano de prisão)”. Assim há razões para que busquemos uma convivência pacífica com os gambás, com base no respeito mútuo. Bom para eles e bom para nós!

Hermione Bicudo

Professora Emérita da UNESP.