Diário da Região
ARTIGO

Sou religioso. E daí?

Não há Deus no coração de quem usa a religião para atacar o próximo

por Carlos Fett
Publicado há 14 horasAtualizado há 11 horas
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

“É melhor ser ateu do que cristão hipócrita...”. Papa Francisco

A frase do início do artigo foi dita por um Papa. Porém, serve para quaisquer líderes religiosos ou frequentadores de igrejas e templos. Sejam católicos, evangélicos ou espíritas.

Pois se trata de uma crítica àqueles que dizem ser religiosos, cristãos, mas exploram empregados, fazem negócios desonestos, são preconceituosos ou vivem uma vida dupla, com atitudes que contradizem o Evangelho que dizem seguir, batendo no peito com orgulho.

Por isso, segundo o comentário do Papa, um ateu que age com integridade e humanidade é preferível a um cristão que, embora vá à igreja, vive com ódio ou desrespeito. A mensagem não é um convite ao ateísmo, mas um apelo para que a fé seja vivida de forma autêntica, com amor e serviço, e não como uma máscara ou mera ostentação de rituais.

Dizer “vou à igreja” ou "sou religioso", tornou-se, para muitas pessoas, um selo automático de virtude. Como se a simples frequência a um templo fosse suficiente para garantir caráter, bondade e retidão moral. Mas a pergunta que precisa ser feita é direta e incômoda: e daí? O que muda, de fato, quando alguém se identifica como seguidor de uma religião, que vai à igreja, mas continua sendo preconceituoso, desleal, desonesto e indiferente à dor do outro?

Ir à igreja, por si só, não transforma ninguém. Bancos, paredes e rituais não têm poder mágico de alterar comportamentos. A fé que não se traduz em atitudes é apenas discurso. De que adianta cantar louvores se, fora dali, a pessoa humilha, discrimina, mente, explora e julga? De que vale levantar as mãos em oração e, logo depois, fechar os olhos para a injustiça ou justificar o ódio em nome de crenças religiosas?

A espiritualidade autêntica começa no caráter. Ela se manifesta na forma como alguém trata quem pensa diferente, quem tem menos poder, quem erra. Não existe coerência em defender valores religiosos e, ao mesmo tempo, sustentar racismo, machismo, homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Não há fé verdadeira onde falta empatia. Não há Deus no coração de quem usa a religião para se sentir superior ou para atacar o próximo.

Muitos transformaram a ida à igreja em um álibi moral: “eu vou, logo estou certo”. Isso é perigoso. A religião passa a ser usada como escudo para evitar a autocrítica e como arma para julgar os outros. Mas nenhuma tradição espiritual séria ensina isso. O centro de qualquer fé deveria ser a transformação interior, a responsabilidade ética e o compromisso com o bem comum.

Ir a um templo deveria nos tornar pessoas mais honestas, mais justas, mais humanas. Se isso não acontece, algo está errado. Porque, no fim das contas, não é sobre aonde você vai ou no que diz acreditar, mas sobre quem você se torna.

Carlos Fett

Consultor Empresarial e em Franchising. Mentor pessoal em Comunicação. [email protected]