ARTIGO

Sororoca

Hoje, a morte foi escondida dentro dos hospitais. Antigamente, ela era vizinha

por Jocelino Soares
Publicado há 12 horas
Jocelino Soares (Jocelino Soares)
Galeria
Jocelino Soares (Jocelino Soares)
Ouvir matéria

Nos tempos de antigamente, o caboclo se embrenhava mata adentro desafiando o desconhecido. O destino era o que a foice abria: uma clareira, um ranchinho de sapé e a esperança plantada no chão bruto. Ali, a família se abrigava dos bichos e das chuvaradas, mas ficava à mercê de um isolamento severo. Médico por aquelas bandas era mais raro que saci de duas pernas.

Por força da necessidade, a arte de curar era um patrimônio passado no pé do ouvido, dos antigos aos mais novos. A farmácia era a própria mata: raízes, cascas, folhas e cipós. Mas, quando a doença era "braba" e os chás já não faziam efeito, o benzedor baixava a guarda, olhava para o teto de palha e sentenciava com a humildade de quem conhece o limite humano: “Entrego nas mãos de Deus”. E o infeliz, como se dizia no linguajar caboclo, acabava por bater com as dez.

Ainda guardo na memória, com a nitidez de uma pintura, um episódio de quando eu era pequeno. Minha avó — mulher de uma sensibilidade que parecia ler o invisível — chegou em casa já na boca da noite. Tinha ido visitar um vizinho que definhava há dias. Meu pai, preocupado, perguntou como estava o enfermo. A resposta dela veio seca, sem rodeios, mas carregada de uma certeza ancestral: “Dessa noite ele não passa. Já está com a sororoca”.

Aquela palavra estranha grudou na minha mente feito cola de sapateiro. Naquele tempo, criança não se intrometia em assunto de gente grande, então guardei o termo no fundo do baú da infância. Anos depois, a curiosidade me levou ao dicionário. Li que a "sororoca", ou o ronco da morte, é a respiração ruidosa causada pelo acúmulo de secreções quando o corpo já não tem mais forças para engolir ou tossir. É o sinal biológico de que o fim da jornada é iminente.

Fiquei pensando: como os antigos sabiam disso sem nunca terem aberto um compêndio de medicina? A resposta está na convivência. Hoje, a morte foi escondida dentro dos hospitais, atrás de biombos e máquinas. Antigamente, ela era vizinha. As pessoas nasciam, sofriam e partiam dentro de casa, sob os olhos de todos. A sabedoria popular não precisava de diplomas para identificar os sinais do corpo; ela tinha a experiência do cotidiano e a intuição aguçada pela observação da natureza.

Eles não conheciam a fisiologia, mas reconheciam o som. A sororoca era o último aviso da partida, o derradeiro suspiro de quem, cansado da lida, ouvia o chamado para o descanso eterno. É a ciência do vivido, que nenhum livro consegue explicar com tanta precisão quanto o silêncio de uma avó sensitiva no cair da tarde.

Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.