Sobre guerras, futebol e demagogos

Difícil não falar de futebol durante a Copa do Mundo. Apesar de estar escrevendo este texto depois da eliminação da Seleção Brasileira e de ter que transferir para 2030 o projeto do hexa, julguei oportuno abordar um tema que, de certa forma, se relaciona com o mundo da bola e com o contexto global.
Estima-se que a Copa do Mundo tenha um potencial para adicionar algo em torno de US$ 71 bilhões ao PIB mundial e gerar aproximadamente 824 mil empregos, em especial naquele conjunto de países que possuem uma relação mais intensa com o futebol. O Bank of America estima que o evento, em si, movimentará US$ 41 bilhões na economia global e o impacto nas receitas diretas da FIFA deve ser superior aos US$ 10 bilhões. No caso específico dos EUA, um dos países-sede, a expectativa é a de que o impacto na economia americana seja de US$ 17 bilhões e proporcione a criação de 180 mil postos de trabalho.
No Brasil, mesmo sem muita confiança de boa parte da população, em razão do desempenho da Seleção nos últimos anos, o movimento comercial deve injetar R$ 4 bilhões no comércio varejista, com destaque para os setores de alimentos, bebidas e vestuário. No início da Copa, o setor de bares e restaurantes projetou um aumento de 76% no faturamento nos dias de jogos mais importantes. Vale destacar, também, o impacto econômico em setores menos citados, porém, não menos importantes: comércio de álbuns e figurinhas; material esportivo (bolas, chuteiras etc.); e, tudo o mais que circula pelo comércio informal (bandeiras, bonés, cornetas etc.).
Em resumo, em termos econômicos globais, os números são muito relevantes. No entanto, esses valores são insignificantes quando comparados ao aumento com gastos militares. No último mês de abril, o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo — SIPRI, órgão que monitora o desenvolvimento nos gastos militares em todo o mundo e é responsável por manter uma base de dados pública, divulgou que, em 2025, o gasto militar global foi de US$ 2,9 trilhões. Somente EUA, China e Rússia, gastaram US$ 1,5 trilhão (51% do total global). Os 29 países membros da OTAN gastaram um total de US$ 559 bilhões. O curioso é que o gasto militar também cresceu em países fora da Europa: Índia (quinto maior gasto, com US$ 92,1 bilhões); Arábia Saudita (oitavo maior gasto — US$ 83,2 bilhões); e continente africano (US$ 58,2 bilhões).
O mais assustador de tudo é que os US$ 2,9 trilhões relativos a gastos militares representam um valor superior ao PIB da Itália (US$ 2,7 trilhões), previsto para 2026. E ainda, equivale à somatória dos PIBs da Irlanda, Bélgica, Suécia e Noruega. Em 2025, a ONU precisava de US$ 48 bilhões para fornecer ajuda humanitária a 190 milhões de necessitados em todo o mundo (metade do valor adicionado ao PIB global pela Copa do Mundo). E, pasmem, o que o mundo gastou com armamentos e demais despesas militares, no ano passado, seria suficiente para atender a esses 190 milhões de necessitados por sessenta anos. Se não bastasse esse comparativo que revela números assustadores e absurdos, a indústria da guerra vem alimentando conflitos há décadas que só agravam e ampliam as demandas humanitárias: aumento de refugiados; crianças órfãs e traumatizadas; mulheres violentadas; falta de acesso à educação, saúde e saneamento básico; entre outras.
Enfim, apesar de tudo isso, a Copa segue em diante, mas, não mais para os brasileiros. Para nós, resta aprender um pouco guerras, futebol e demagogos. Sobre as guerras, é sempre bom observar quais países e governantes as provocam e as financiam. Isto revela muito sobre o quanto esses países e governantes respeitam os seres humanos e a vida, é claro. Sobre futebol, é uma excelente oportunidade para que os brasileiros identifiquem aqueles políticos demagogos que, em seus hotéis e camarotes de luxo, financiados com dinheiro público, acreditam que assistir a um único jogador de futebol é mais importante do que olhar para os 220 milhões de brasileiros, nunca assistidos por eles. Vale lembrar: 2026 teve Copa e terá eleições.
Ademar Pereira dos Reis Filho
Doutor pelo IGCE – Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto