Diário da Região
ARTIGO

Servidor precisa ser preservado

Polarização não pode ser licença para caça às bruxas. Perseguir servidor é perseguir o Estado

por Lawrence Garcia
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Em anos eleitorais, a política costuma subir o tom. Em um Brasil já tensionado, esse aumento de volume não se restringe às redes sociais ou aos palanques: ele invade repartições, corredores administrativos e rotinas de trabalho. Nesse ambiente, um risco silencioso precisa entrar no debate público: a pressão e a perseguição política a servidores públicos como subproduto da polarização, com impacto direto na qualidade do serviço entregue ao cidadão.

Servidor público não é extensão de governo nem tropa de campanha. É Estado. Quando a lógica do “nós contra eles” contamina a administração, práticas que se apresentam como gestão ou fiscalização podem se converter em instrumentos de intimidação: boicotes institucionais, exposição pública indevida, ataques em redes sociais, assédio moral e tentativas de impor ao servidor um papel de militante, seja por alinhamento, seja por medo. O assédio moral, nesse contexto, não atinge apenas o indivíduo. Ele corrói a confiança nas instituições e compromete a neutralidade técnica, pilar de qualquer democracia funcional.

Em cenários de alta tensão institucional, esse fenômeno aparece com frequência na interface entre Legislativo e Executivo. Mecanismos legítimos de controle passam a operar de forma personalista, requerimentos que solicitam dados sensíveis além do estritamente necessário e tentativas de construir narrativas de culpa por meio de exposição pública em sessões, transmissões e redes sociais. Há ainda a abertura ou estímulo a representações baseadas em presunções políticas e não em evidências.

O efeito colateral é conhecido na governança pública. Eleva-se o custo de decidir, induz-se o comportamento defensivo, o chamado apagão das canetas, desorganiza-se a cadeia de responsabilização e compromete-se a impessoalidade do serviço público. O servidor, que deveria estar protegido por critérios técnicos e pelo devido processo, torna-se alvo indireto de disputas de poder.

Os efeitos são sistêmicos. Bons profissionais evitam decisões por receio de retaliações futuras. A capacidade de entrega de políticas públicas diminui, pois a energia que deveria estar voltada à solução é consumida pela autodefesa. E perde-se algo ainda mais valioso: a confiança nas instituições.

Polarização não pode ser licença para caça às bruxas. Perseguir servidor é perseguir o Estado. E um país que intimida seus próprios profissionais sabota a si mesmo e, sobretudo, o cidadão, destinatário final de todo serviço público.

Lawrence Garcia

Um observador das capitanias hereditárias riopretenses.